Segunda-feira, Fevereiro 08, 2010

Quadro clínico:

Ansiedade.


"Seja mais homem, Gislaine".

Esse foi um dos melhores conselhos que recebi até agora.


Quarta-feira, Fevereiro 03, 2010

Vida e vídeo
No lugar de viver o momento, fotografa-se o momento. Roubando a essência, deixando o instante passar. Então se publica: “eu no shopping”, “eu no sofá de casa”, “eu vendo Avatar com óculos 3d”, “eu cozinhando milho verde num dia quente enquanto lá fora a lua se esconde”.

“Eu vivendo”, na verdade, sou “eu me vendo”, “eu não-eu”, “eu mostrando eu”, “olha eu aqui”, “olha como sou legal”.

E na verdade aquilo não é real.

Pegue uma pessoa com uma puta de uma vida que parece ser legal. Orkut é ótimo pra isso. Tem as fotos mais fantáaasticas. Você pensa: “pô, que vida legal esse cara tem”. Na prática, o que ele faz é fotografar, nada mais. “Eu vendo domingão do Faustão”.

Pô.

Não há mais vida, há só imagem falsa. E os dias passam, registrados gota a gota, mas a realidade se torna estranha, quase como se não a tivéssemos vivido. Foi um outro, eu só vejo a vida através de fotos. Eu não estava ali. Mas posso te mostrar como minha vida é emocionante. Isto é, se é que eu estive lá. Será?


Pássaros espiões

Pardais são robôs espiões que enviam imagens das nossas casas para algum satélite lá em cima, no espaço. Por isso eles vivem em fios de luz. Olhe para eles, mostre que você sabe quem eles são. Dá dez segundos e eles vão embora.

Sério.


Me dê dez minutos e três rolos de papel crepon.

Pronto, alegria.


Segunda-feira, Fevereiro 01, 2010

A idade do céu


E desbloqueio é quando aquele tal vazio se transforma em amor que veio.




Planos?


Ir ao show do Paulinho Moska.

Preciso de mais algum? Eu sabia que não.


Quarta-feira, Janeiro 27, 2010

Existe algo, sim, nesse tempo, que me rouba de mim mesma. Deixando o egocentrismo tomar conta: eu escrevia antes, caralho! Eu costumava ser divertida, eu tinha metáforas, havia uma rapidez de pensamento. Por falar demais, parei de escrever. Posso agora me propor - voto de silêncio!

Silêeeencio.

Si, lenços????

Sim, Lêncio?

Sil? En cio.




Adrenalina, ou seja lá o que for, surge sem motivo aparente. Sobe pelo corpo e vai se divertir no lado direito do cérebro.

E invento qualquer coisa pra fazer, o mundo está aí.

E o trabalho de economia não sai.

Pensei em jamais voltar a fala das pessoas. Mas o que é o mundo senão elas? Aqui embaixo tem uma pessoa, o Moska, ali do lado tem outra, a Cintia, aí atrás da tela tem outra, você. E o que mais, certo?

Mas sei que quando me prendo à terra, ao terreno, ao físico, acabo perdendo muito do que existe de verdade. Então é preciso parar, respirar, centrar no etéreo. Céu, ar, espaço, sentidos. Que só assim eu sei voar.


Segunda-feira, Janeiro 25, 2010


Falar o que pensa quando a indignação te toma conta.

É, também dá.


Falar o que pensa, quando há bagagem e argumentos.

Por que não?

Claro!


Sexta-feira, Janeiro 22, 2010

...e é aí que eu pergunto: meu filho, então pra que porra serve a comunicação????


Segunda-feira, Janeiro 18, 2010

Site da Miranda July.

Existem espaços nos quais a hora de escrever se encaixa. Mas é preciso sinceridade, espontaneidade. Não dá para mentir muito, não durante um texto inteiro. As verdades me escapam e mostram carinhas sorridentes aqui e ali.

Não dá para mentir por uma página inteira!


Pequena história sobre o conforto que o ego traz, que o Osho conta:

"Ouvi dizer:

Uma criancinha estava visitando seus avós. Ela tinha apenas quatro anos de idade. De noite, quando a avó a estava fazendo dormir, ela de repente começou a chorar e a gritar: "Eu quero ir para casa. Estou com medo do escuro."

Mas a avó disse: "Eu sei muito bem que em sua casa você também dorme no escuro; eu nunca vi a luz acesa: Então por que você está com medo aqui?"

O menino disse: "Sim, é verdade - mas aquela é a minha escuridão. Esta escuridão é completamente desconhecida."

Até mesmo com a escuridão você sente: "Esta é minha.""

Osho - Livro: Além das Fronteiras da Mente


Terça-feira, Janeiro 12, 2010

Alguém devia ter dito:

Gislaine, você está chata.

Porque, raios, como eu estive.


Quinta-feira, Janeiro 07, 2010

Osho, no livro "Osho todos os dias - 365 meditações diárias", editora Verus, 10ª edição, 2003.

"Quando você tem tempo suficiente para gastar, somente então o deleite é possível"

"No ocidente existe muita pressa devido ao conceito cristão de que há somente uma vida e de que com a morte você partirá e não será capaz de voltar. Isso criou uma idéia muito louca na mente das pessoas, e todos estão com pressa, correndo rápido. Ninguém se importa com o lugar para onde está indo; as pessoas pensam apenas em andar mais depressa, e isso é tudo. Assim, ninguém está desfrutando coisa alguma; como se pode desfrutar a uma tal velocidade? A vida toda se tornou uma sequência de eventos rápidos.

Para desfrutar algo, você precisa de uma atitude muito relaxada. Para desfrutar a vida, você precisa da eternidade. Como se pode desfrutar, quando a morte virá em breve? Você tenta desfrutar tanto quanto puder, mas, nesse próprio esforço, toda a paz é perdida, e sem pax não existe o desfrute. O deleite é possível somente quando você saboreia as coisas muito lentamente. Quando você tem tempo suficiente para gastar, somente então o deleite é possível.

O conceito oriental da reencarnação é belom e não importa se ele é ou não verdadeiro. Ele lhe dá uma atitude muito relaxada em relação à vida, e é isso que importa. Não estou reocupado com a metafísica. Ela pode ou não ser verdadeira, e esse absolutamente não é o ponto. Para mim, isso é irrelevante, mas ela lhe dá um belo fundo de cena".


Terça-feira, Janeiro 05, 2010

Trash 80 porque? Oras, como assim???


Segunda-feira, Dezembro 28, 2009

Quando vejo o ano escrito em cabeçalhos, 2009, parece que é um ano que já passou. Dá aquela sensação de ser o passado, um ano antigo, um ano de lembranças, que já foi, já foi. E tenho isso desde o meio do ano. É, 2009, o ano que já acabou pela metade. É o que parece.

Eu poderia falar sobre perdas e conquistas desse ano, do meu míope ponto de vista, mas ah, não vou. Estou mais isso, menos aquilo, o mundo perdeu esse, se espantou com aquilo, chorou com tal coisa e celebrou aquela outra. É, 2009 foi o ano daquele acontecimento, das pessoas a, b e c, das histórias tristes e felizes, dos sustos grandes, das preces, dos abraços. Porque, independente do último número dos quatro que juntamos para definir como uma data, o mundo ainda é dominado por humanos, que choram e fazem coisas erradas. E se emocionam, e esquecem. E os fatos, de qualquer tamanho, só fazem mudar as pecinhas de lugar, no máximo, , mudam as cores, mas a história continua sendo um grande balde de lego.

E o que a gente faz é só tirar daqui e por ali. O que se enxerga com isso, bem, aí é da conta de cada um.


Domingo, Dezembro 27, 2009

A agenda mundial sempre me impressionou. Datas marcadas como especiais em calendários, e as pessoas simplesmente param. Compram, programam viagens, celebram, se abraçam, entram no clima.

Feriados, dias das crianças, dia das mães. Feriados religiosos. E uma multidão age de acordo com o convencionado. Andam em grupos, estouram cartões de crédito, se abraçam, falam sobre planos e refletem sobre a vida. Enfrentam filas. Afinal, é feriado. E o que fazer, senão seguir com todos, conforme sempre foi, como sempre deverá ser?

A mobilização de grandes grupos em torno de algo que foi estabelecido em uma época anterior ao nascimento deles me intriga. As pessoas que decidiram, que estabeleceram, nem aqui não estão mais. Talvez um tio-bisavô, mas tão distante de uma realidade que um dia, disseram, teria de ser assim. A cada dia 19 de março, será o dia da rotina. Então, todos pensam em suas rotinas, e não trabalham, e comem aspargos ao mel. E pronto. E haverá promoções, e haverá comércio, e as agências de viagens terão pacotes especiais, até 50% de desconto para sete dias, com duas crianças de até 12 anos.

E parece que sempre foi assim, a idéia burra de um tradicionalismo que talvez nunca tenha existido.


Quarta-feira, Dezembro 16, 2009

Existe uma atmosfera de fim de ano com a qual nunca me sinto... integrada. Não aproveito os momentos quando eles acontecem, por mais que pense "eu devia".

E assim, sigo.

Das coisas que realizei esse ano, não irei citar nenhuma. Rá.
Desde quando vidas se medem por realizações, afinal? Vidas são amontoados de acontecimentos, montinhos de grama seca, daquelas que quando cortam de uma graande área verde, o cheiro fica por todo o lugar. Eu pego a grama seca, faço montinhos e... pulo em cima. De um para o outro. Até escurecer e chegar a hora do banho.

Penso que a sequência de acontecimentos no mundo não nos dão tempo de digerir as coisas. Mas acabei de falar e morreram 50 na Mongólia. Passou três minutos e inventaram um novo acelerador de partículas. Comi dois pães e a rainha da Inglaterra declara que a guarda real usará chapéus brancos. Espero horas pra fazer xixi porque tenho preguiça e, quando vou, lançaram mais um míssil em algum país distante-tão-perto.

E não tenho a velocidade que queria para estar em toda a parte. Não tenho a energia pra absorver tudo, e há tanta vida por aí... Existem coisas embaixo do meu nariz que não percebo, há pedacinhos de histórias que cruzam o meu caminho diariamente. Gente com quem não converso e teria tanto, tanto a me ensinar.

E isso não é bom ou ruim, apenas... é.


Segunda-feira, Dezembro 14, 2009

...e eu me dei alta da terapia.


...e eu continuo sentindo que existe uma vida lá fora e que, que existe algo que estou perdendo. Como alguém que nunca é convidada pra uma festa. Como alguém que dorme e perde a hora pro compromisso mais importante.

Existe, em algum lugar, um espaço onde eu deveria estar. E pessoas com quem eu deveria estar. E cenários que eu deveria estar olhando, nesse instante. Existe alguma linha que desviou o caminho do trem sem que eu percebesse!!


Acho um absurdo!!! Absurdo!!

Sou totalmente contrária à idéia de "metade da laranja". Não sou metade de ninguém. Sou inteira e tenho todas as partes.

Oras.


Segunda-feira, Dezembro 07, 2009

Existem dois grupos de pessoas:

as que saem sozinha e são felizes com isso

e as que saem acompanhadas e olham torto para o primeiro grupo.

Qualé? É possível ser feliz sozinho sim. Quem escreveu a música, mentiu. Como acontece em muitas canções, filmes e livros.


Tudo bem, não precisa comentar.


Domingo, Dezembro 06, 2009

E chega uma hora em que é preciso refletir. Você para e pensa: e agora?
Em qualquer momento da vida há planos. Expectativas. Um amanhã cheio de projetos. Ainda os tenho. Agora, tenho o tão sonhado tempo meu. É só meu. Coloquei num vidrinho daqueles com areia do nordeste, toda colorida.

Então, eu durmo. Então, eu leio. Então, eu ando pela cidade. E até conto minhas historinhas pra amigos. E, escrevo. Como menos, tenho mais preguiça.

Quando saio portão afora com minhas convicções, tudo se torna geléia. Nuvens bem bonitinhas, em formatos certos, parecendo desenhadas, pluft, se espalham.

E agora são duas da manhã. Mas a internet tem lá seus modos de me fazer companhia. Acompanho o crescimento de filhos de amigos pelo Orkut. Compartilho tristezas, sinto dores que não são minhas, sorrio com as amizades e os sorrisos que vejo.

Mas ainda são duas e vinte.
Ouço o novo cd da Mallu Magalhães. Não é de todo ruim. Começo a ver um filme. Mas comédias estão vazias. Notícias, notícias.

e ainda são duas e vinte e três...


Quinta-feira, Dezembro 03, 2009

...e agora meu pai ouve Susan Boyle quase toda noite. Até comprou o CD.


Gislaine-quase-homem

É, assim as coisas vão:
objetiva, direta, sem paciência, sem frescura.

Mas ainda me falta saco. Literalmente e... não.

Deve haver algo de errado. Ou não. Já não apostaria em nada.


Segunda-feira, Novembro 30, 2009

Eu podia...

escrever a letra de uma música e fingir que não é comigo. Que não sou eu. Que não é nada.

Que não é nada autobiográfico. E as coisas são aleatórias, e nada é premeditado.

Sim, eu podia.

Sempre posso, aliás.

"Moço, hoje eu vou querer
A comida mais estranha
A que menos se pareça comigo"

Droga, fiz de novo.


Eu deixei de ser uma batata!!

Isso precisava ser dito.


Terça-feira, Novembro 24, 2009

My way

Trecho do documentário de Eduardo Coutinho, Edifício Master. E é esse conjunto de sentimentos, retratos, sonhos que me faz amar e odiar as pessoas.


Segunda-feira, Novembro 23, 2009

O fato é que sou extremamente intolerante, que a simpatia e o comportamento aceitável socialmente já caíram fora da ordem do dia.


No blog cabe uma feira inteira, não só meia dúzia de abobrinhas, como no twitter.

Já não me adapto às novas tecnologias.

E isso, bem, não muda nossas vidas, baby.


Quinta-feira, Novembro 19, 2009

Então preste atenção ou me compre uma flor

Aconteceu assim:

Passaram meses, em sequência de dias, e o ar foi mudando de cor. De acordo com o tempo, sol, chuva. Meu ar, minha pequena bolha de 45 centímetros de diâmetro que me circunda fica colorida ou cinza. E é perceptível. "Ih, hoje a bolha está recheada de nuvens. Certeza que vem tempestade". Geralmente é em época de TPM.

Então é assim:

Eu corro pelas ruas da cidade pra pegar o ônibus que corre segundos à frente. E eu adianto o relógio cinco minutos hoje, mas amanhã ele já vai ter voltado ao normal e eu estarei atrasada. E todo dia eu adianto, pra fazer de novo no dia seguinte. O relógio da Band News sempre bate o meu, por dois minutos.

É assim, também:

Estive em São Paulo com vários amigos. Achei o tempo curto, as ruas grandes e o céu bonito, apesar da poluição. Havia uma árvora com placa de 'aluga-se' em frente a um prédio. Pensei em fazer uma oferta. Teve um mar de cabeças que a gente vê de cima nas ruas de compras de São Paulo. Elas andam rápido e sempre sabem pra onde ir, como nas estações de metrô, que parecem cenas de filme-fim-de-mundo, gente, gente e um clima de tensão. Todos têm compromissos, e tudo é inadiável.

Foi de outro jeito, depois:

Rio de Janeiro, a trabalho.
ou
"At the Copa, Copacabana"

Três dias de trabalho em frente à praia. Segunda à tarde, gente e mais gente estendida em esteiras. E o sol? E o mar? E a rua que muda de sentido à dez da manhã?
Claro, sempre há a parte de comer algo que faça mal. E aquela de ver gente diferente pelas ruas. Compras de bugiganga, sol. E Jesus Luz estava em Ipanema, logo ao lado, veja só, saiu no jornal. Mas não saiu sobre o seu Sérgio, conhecido como "Sorriso", que ganha a vida cantando com um pandeiro para turistas que pagam o quanto querem pela melodia do negro sem dentes mais simpático de todo o Rio. Também não saiu nada no jornal sobre o senhor que todos os dias passeia com um pastor alemão chamado Eros. E, incrível, nada sobre o sanduíche de frango com queijo minas (?) que se pode comer com tranquilidade em um dos quiosques brancos. Na tv, o tiroteio de 5 horas da Barra da Tijuca.

Pouco vi do lado violento, passei por perto aqui e ali, mas não foi significativo. Pouco tempo pra turismo, mas muito pra para e pensar: uau, Copacabana. E as palmeiras. Enfim.

E foi assim também:
Continuo tendo pânico de avião. Só melhoro quando é de noite e, na turbulência, imagino ser um ônibus na estrada esburacada.

Ah, o conselho do meu pai continua sendo muito válido: só tome água mineral e táxi oficial.


Domingo, Outubro 11, 2009

O que me consola na gripe é que ela vai embora em sete dias.


Terça-feira, Outubro 06, 2009

Está voltando, está voltando...

Eu tenho uma bola de plástico, ela é rosa. Quando jogo pra cima, toda minha racionalidade aparece. A bola fica lá em cima um bom tempo, rodando, rodando. E por aqui, me divirto sendo uma pessoa movida pelo cérebro. Gosto disso, sabe. Objetividade, rapidez, competência. Como não gostar? Sigo cada dia sabendo quais são os passos certos. Estabeleço metas! Cumpro! Ok, nem todas. Mas consigo ver lá na frente, as nuvens somem.

Mas, todo objeto lançado para cima chega a determinado ponto e... começa a cair.

E a bola rosa está caindo... Quando ela volta para minhas mãos, traz consigo a paixão. Em volta de mim, sentadas montando castelinhos de areia, tem três ou quatro menininhas, choronas, mimadas e medrosas. Elas me contagiam, inferno!

Mas, dependendo da força com que eu tenha arremessado a bola, ela pode levar mais ou menos tempo pra cair. Acho.


Procurei. Ou é caro ou é longe. Não acho uma boa, barata, perto, bacana.

Academia, quem diria. Yoga nessa cidade, só em lugares longe da minha casa. E yoga em academia é uma coisa... estranha. Não combina. Então a moça me diz que a modalidade da academia é mais voltada para exercícios físicos. DANEM-SE os exercícios físicos!! E o moço me diz que posso fazer "tudo" por R$ 264, o pacote fitness. Que merda é essa? Pacote fitness, tsc. Só quero yoga, moço, só yoga, não me interessa mais nada. Mesmo que os professores de natação sejam bonitos, mesmo que haja promessa de definção do corpo em um mês, diminuição do número do manequim em duas semanas, qualquer coisa, qualquer outra coisa. Eu só quero yoga.

Tá, a daqui pertinho é R$ 110. E é a mesma coisa. Pacote, yoga de academia, pessoas suadas com suas garrafinhas d´água. Espelhos. Abdômens, televisão.

E tem aquela que me perdi pra achar. Longe, um lugar escuro, cara de improviso. Lá eu poderia fazer pilates, spinning (?), yoga e musculação, por módicos R$ 90. E a yoga? Típica de academia. Aberrações. E não dá, baby, pra voltar Às 21h30, horário da aula, à pé, pelas ruas aqui do Cristo Rei. Não dá, gente, não dá.

Mas há esperança, sempre há. Não quero muito. Só yoga.


Domingo, Outubro 04, 2009

Porque ainda uso Internet Explorer 6.0. E ainda gosto de bolacha recheada com Sessão da Tarde.

Porque talvez não me encaixe em um mundo de dinheiro, poder e belezas de superfície. Porque ainda prefiro sorrisos sinceros, sorvete de flocos, pão com margarina.

Qual é a pergunta dessas respostas? Ela ainda não apareceu, mas nem tudo na vida segue a ordem natural.


Segunda-feira, Setembro 28, 2009

É.




Tiê, Dois.


Das coisas que mulheres fazem melhor que homens...



Bruna Caram, Palavras do Coração.


Domingo, Setembro 27, 2009

...depois de tanto tempo

Ficar sozinha num fim de semana tem lá suas vantagens. As horas continuam a passar, mas agora estão em um relógio que é só seu. Cozinhar para uma pessoa só tem seus encantos, especialmente se você conhece todos os gostos dela. É verdade que ainda não sei medir as quantidades só para mim.

No ônibus, a falta de ar. "certeza que é gripe suína. Vou morrer em dois dias e nunca fui à pracinha do Largo da Ordem. Não fiz nem metade do que queria, falei menos do que devia, vi só 1/10 do mundo, será que dá tempo de ir pra Brasília? Ai.". Era só uma garganta engasgada, mas falam tanto de problemas respiratórios como principal sintoma...

Não era, acho. E não fui ao Largo da Ordem.

Os bairros ali por perto da Vila Hauer, onde morei de 1990 a 1994 têm cheuro de frango assado no domingo. Pessoas andando com sacolas de refrigerante. Moças loiras com a raiz do cabelo preta, de shorts, andam de mãos dadas com seus namorados. Cachorros dormem nas calçadas. Tiozinhos lavam o carro de balde. Aqueles bairros da região têm cheiro de infância. De fim de semana na casa da vó, de macarrão liso com molho vermelho, de Cini framboesa.

Mas, ainda não sei bem o que fazer com as minhas horas. Tenho um livro de páginas brancas nas mãos e não tenho muita idéia de como preenchê-lo. Posso escolher N coisas. É só escolher. Isso me acua. Então fecho o livro e deixo para depois. Sempre.

Tenho projetos, tantos e tão diferentes. Não faço, mas ainda os tenho!

Não consigo assistir filmes sozinha. Tentei várias vezes. Fica chato. Paro no meio, perco a paciência, durmo. Fazer algo sozinha, concentrada no que estou fazendo, é difícil. Sei que reaprendo, é só uma questão de dias, de tempo. E continuo perguntando: "o que você quer, Gislaine?".

Escrever um livro.


É quase fim do ano.
É quase mês 10.
É quase outubro, são quase 25 anos, quase oito meses em Curitiba, sempre quase feliz.

Há quanto tempo eu não pergunto "o que você quer, Gislaine"?
Meses.

Hoje de repente me dei conta de que os compromissos também podem ser comigo mesma. E saí como quem tem hora marcada para algo muito importante. E era só eu comigo mesma. Hora de me levar pra passear. Tudo bem, peguei o ônibus errado. Esqueci o dinheiro em casa. Voltei cansada, mas ainda assim foi comigo. E não vou mais me deixar fugir.

O que você quer, Gislaine?

Tempo para respirar o ar que criei à minha volta, colorir um pouco a cada dia com as cores misturadas que resolvi que existem.
Espaço para ir e vir sem muros. Elasticidade.
Sol, grama e uma amofada para dormir.
Trabalhar com desenhos animados.
Comer pastel frito na hora, na feira.
Esvaziar o coração que nem bexiga, soltar tudo o que sufoca.
Limpar o armário e tirar a poeira do mundo.
Lavar a alma com uma mangueira, sentir a água nos pés.

Não é muito, vai.

=)






Sábado, Setembro 12, 2009

Ponto de interrogação

Com que roupa,
Com que roupa
eu vou?
Foi isso que o
cabide perguntou







Quarta-feira, Setembro 09, 2009

"...Estou me encontrando aqui em Curitiba, já não me sinto tão sozinha, mas ainda é estranho ter tempo de noite e não saber o que fazer com ele. Trouxe o Floco pra ficar comigo até o fim de semana do dia 18. Tadinho, fica sozinho das 9h às 18h. Mas tá bem.



Voltei pra PG esse fim de semana e foi como ver uma cidade fantasma. Me desacostumei. Mas foi difícil separar minha mente e coração de lá, da casa, de tudo. Ainda tô tentando me equilibrar sozinha por aqui, mas é um equilíbrio bem frágil. Tem dias em que tô com a corda toda, animadissima. Noutros, sou um esqueletinho de muletas. Variam os dias.



E hoje te liguei pra te convidar pra vir aqui em casa, mas acho que tinha aula. Quando quer vir? Noite dessas! Sinto falta da gente se encontrar e conversar. Moramos na mesma cidade e quase nunca nos vemos, menina. Isso é ridículo. Aó questiono a qualidade de vida aqui. Tudo deveria ser mais divertido. Tô tentando colorir os dias, um pouquinho de cada vez. Você faz parte da minha caixinha de giz de cera, ou da de lápis, ou da de tinta guache. Viu? Gosto muuuito de você, torço sempre pela sua felicidade, seja aqui, no nordeste ou em qualquer canto do mundo.



Beijo. Me escreve de novo. Eu espero.



=)



Gi."


Quando a gente morre

Depois que a gente morre pouca coisa muda. Tem pessoas que passam dias pensando na gente, ficam triste mesmo, até mudam um pouco suas rotinas que antes estavam tomadas de sujeira na lente. Elas não enxergavam o que havia de mais importante, tão perdidas com o que tem pra fazer de importante, dia-a-dia.

Pra gente que morre, não importa mais a reforma ortográfica. Mesmo que a gente tenha se matado de estudar pro vestibular. As atualidades políticas também, pouco importam. Já não ligamos mais se a Dilma vai perder as eleições porque não tem carisma.

Quando a gente morre ficam por aí os discos, os livros e os históricos de conversa no msn. Ficam por aí as páginas pessoais, os perfis do Orkut.

Tem sempre alguém que queria ter dito, queria ter feito, e no lugar do que ia existir só chega uma notícia. Tem sempre a tia distante, a amiga próxima, o vizinho mau humorado, o primo da sogra do namorado e tem também cafezinho.


Quando a gente morre o sagu não tem mais gosto, mesmo que seja de qualidade, mesmo que seja de vinho e não de suco de uva.


Quarta-feira, Setembro 02, 2009

A realidade é móvel. Um palco com luz colorida, ambientação e roteiros. Mas os objetos, esses se movem. Nunca sei onde é que vai estar a cadeira dali a cinco minutos. A cortina volta e meia troca de textura... Existe ainda cheiros que o vento traz e leva, com tons mais doces ou mais fortes, depende da velocidade dos segundos.

A realidade é uma estante de livros com rodinhas.

De todos os cenários que já montei pra mim, os atuais são os mais inconsistentes. Mas eu criei, posicionei objetos, determinei horários e regrinhas, comprei flores para combinar com a estampa do tapete.

A minha realidade, agora criada realmente por mim, é móvel. São peças de lego que se encaixam nas mais diversas posições e podem formar absolutamente o que eu quiser.

Aprendi a não evitar conflitos, que eles são necessários. Do contrário, a gente se cala e acaba deixando muita coisa pra lá, inclusive a vida. Aceito meus conflitos, os exponho e decido: vamos lá, agora que estão claros é só pensar na solução. Primeiro, saber o que quero. Quero? Ok, quero. Depois, para a prática. Nunca ao contrário. Tudo bem, sempre pulei etapas.

Não sou uma pessoa de coragem, ao menos não me via assim. Prefiro evitar problemas, discórdias. Sempre da turma do "deixa disso", apaziguando o mundo. Nunca tive problema em abrir mão do que eu quero para satisfazer um grupo de pessoas, ou uma até. Tá, tenho lá minhas birrinhas, mas não sou egoísta. aliás, acho o individualismo um dos maiores pecados nesse mundo tão grande. Tá, tá, também tenho meus dias de rainha do universo.

Mas, sabe, agora ao menos consigo dizer: não, não quero mais isso. Não, não tolero mais, não tenho por que. É um exercício demorado, mas tem ótimos resultados, ao menos pra auto estima.

Nos últimos meses houve uma gigante mudança entre querer ser adulta e me comportar como uma. É verdade que desde os seis anos já parecia uma mini-adulta. Responsável, preocupada, etc. Um saco de criança, cá pra nós. Ninguém me chacoalhava com um "ei, vai curtir a infância", então eu achava muito natural me preocupar com a ordem, a moral e os bons costumes do mundo, com a ecologia, a economia de água, o preço das verduras e o orçamento do material escolar.

Mas assim fujo do assunto. E, quem quer assunto? Quem quer ler tanta coisa? Levo meses pra voltar a escrever aqui, e talvez leve mais alguns pra voltar. Tenho meus sustos que dizem: psiu, a vida passa mesmo muito rápido. De que importa tanta preocupação com compromissos criados pela gente, na nossa cabeça, no nosso mundinho? A Terra não explode quando eu digo um não e decido desviar o caminho do trabalho pra comer pastel na feira. As pessoas não morrem se eu me fizer ausente. A bolsa de valores não vai ter um novo crash se de repente eu resolver pegar o ônibus errado e parar no cinema.

Já não me cobro mais tanto, não entro na onda do "tenho que fazer isso". Ok, existem momentos de tensão que me dominam. Mas são menores agora.

Conhece a Tiê? É uma cantora da voz suave com composições bonitas e que vem cantar aqui na Bienal do Livro, na sexta-feira. Aliás, o Rubem Alves também vem, amanhã. Velhinho, inteligente e o máximo da sensibilidade em uma pessoa. Me casaria com ele, já disse.
Então, a Tiê fez essa música, ó, que de tão bonita me deixou tentada a faltar aula pra ver. "Tenho que ir pra aula, tenho que ir, não posso faltar", é assim que começa um pensamento bola de neve que se transforma em tensões pelo corpo inteiro. E, cá entre nós, eu não "tenho que" porra nenhuma, que essa vida fui que criei, e, como disse, é móvel, como uma casinha desenhada com palitinhos de fósforo. Mexo um e crio uma nova figura.

Ah, a música, não é?


Assinado Eu (Tiê)

Já faz um tempo
Que eu queria te escrever um som
Passado o passado,
Acho que eu mesma esqueci o tom
Mas sinto que
Eu te devo sempre alguma explicação.
Parece inaceitável a minha decisão.
Eu sei.
Da primeira vez,
Quem sugeriu,
Eu sei, eu sei, fui eu.

Da segunda
Quem fingiu que não estava ali,
Também fui eu.
Mas em toda a história,
É nossa obrigação saber seguir em frente,
Seja lá qual direção.
Eu sei.

Tanta afinidade assim, eu sei que só pode ser bom.
Mas se é contrário,
É ruim, pesado
E eu não acho bom.
Eu fico esperando o dia que você
Me aceite como amiga,
Ainda vou te convencer.

Eu sei.

E te peço,
Me perdoa,
Me desculpa que eu não fui sua namorada,
Pois fiquei atordoada,
Faltou o ar,
Faltou o ar.

Me despeço dessa história
E concluo: a gente segue a direção
Que o nosso próprio coração mandar,
E foi pra lá, e foi pra lá.

E te peço,
Me perdoa,
Me desculpa que eu não fui sua namorada,
Pois fiquei atordoada de amor
Faltou o ar,
Faltou o ar.

Me despeço dessa história
E concluo: a gente segue a direção
Que o nosso próprio coração mandar,
E foi pra lá, e foi pra lá, e foi pra lá.


Sexta-feira, Agosto 28, 2009

Eu ia, mas desisti.

e dos impulsos não realizados faz-se a minha vida.


Quarta-feira, Julho 08, 2009

ê, ê, ê, cadê a 4ªD?

Eu concordo, esse blog tá uma merda. E ele já foi melhor. E eu tinha mais tempo, vontade, menos idade, peso e compromissos.
Sempre pensei que alegar falta de tempo era dar atestado de burrice. O tempo é seu, não é de mais ninguém.

- Mas eu não consigo evitar, Fabi!
- Gislaine, estamos falando da sua vida, não de um trem desgovernado.

A Fabiane me faz falta. Ela está por aí, em Ponta Grossa, fazendo faculdade, subindo oito andares e descendo oito andares por dia, no elevador que hoje é seguro, mas já foi um compartimento de madeira que estalava. Pra falar com ela bastaria um telefonema. Que nunca dou mas sempre penso em fazer. E não faço.

Sinto falta da Ísis, do tempo do cursinho. Do Guilherme, da mesma época.
Lembro das Frans. Eram gêmeas. Continuam sendo gêmeas, obviamente. Moravam em um conjuntinho de prédios. Com treze anos, o que mais queriam era ir pra Disney. Eu realmente gostava delas. Ainda gosto, mesmo que na minha mente a imagem seja de duas meninas magrinhas jogando vôlei no meu aniversário de doze anos, de roupas verdes e brincos do Mickey.

Penso também no Edinho. Era meu melhor amigo aos quatro anos de idade. A gente brincava no parquinho. Minhas irmãs diziam que a gente namorava, mas na época eu tomava Gadernal e mal me equilibrava no balanço. "Ó lá, tua irmã tá caindo do balanço de novo".

Lembro da Carol. Quando eu tinha cinco anos ela devia ter oito. Bonecas de papel e suas roupinhas eram a maior diversão do mundo. Depois que me mudei de Londrina, ainda a visitei durante alguns anos. Ia lá no conjunto de prédios, tocava o interfone.

- A Carol tá aí?
- Não, tá na casa da Larissa, no bloco 6.
- Ah, tá.

Bloco 6, interfone:
- A Carol tá aí?
- Tá. Caroooool.
- Oi!
- Carol, vamo brincá?
- Ih, agora tô assistindo desenho.
- Tá bom, eu espero!
- Ih, depois vou assistir Chaves.
- Ah, tá.
- Tá, tchau.

- Ué, filha, não ia brincar com a Carol?
- Não, ela foi assistir Chaves.

Lembro da Ângela dos Passos. Ela morava atrás de um convento, em um bairro distante. Cantamos parabéns pra ela no recreio, nas mesinhas de xadrez, com três latinhas de refrigerante e uns docinhos. Um dia vi a mãe dela, depois de muitos anos. Mas não perguntei: "como vai a Ângela?". E, por não perguntar, nunca mais soube dela.

O Felipe na sala disse:
- O Alisson quer saber porque você só usa meia da Maxitango.
- Ah, é que eu ganhei um monte delas quando comprei o tênis.

Eram meias brancas até o joelho com váaarias logomarcas da loja de calçados da cidade. Nessa época criei ressentimento de brindes.

As pessoas entraram no meu catálogo mágico com seus trejeitos, falas e olhos tristes. A Rosângela da quarta série tinha uma irmã da mesma idade que escondia cigarros na bolsa. A Elisângela, três vezes maior que eu. Que ganhou de mim na Queimada e me fez ser piada o ano inteiro.

- ê ê ê, cadê a 4ª D?

Pô, eu tinha um metro, comé que me colocam na base?

Mas eu não quis trocar de lugar com a Letícia, que tinha franjinhas castanhas. Cancha cheia, bola pesada, e a Elisângela virando um muro cada vez maior na minha frente. O muro crescia e a bola não chegava do outro lado. Tudo bem, ela fumava aos dez anos e era repetente, a vida dela não era boa.

Tudo isso de uma vez e chega.


Domingo, Julho 05, 2009

Sebastiana, a vó.

Foram dois adeus em uma semana.
Teve lágrimas, abraços, espaços, lamentos.
Também houve pessoas, parentes, dias e noites sufocados por expectativas.
E discussões, e medos, e apostas, e fé.

E conformismo, viagens, madrugadas.
Teve café às duas da manhã, mesa posta o dia todo.
Ela era a vó. Nós éramos filhos, netos, sobrinhos, agregados, irmãos.
Ela era a Tiana. Nós éramos Gislaine, Judith, João, Letícia, Camila, Davi.
Ela era o centro de uma família. E sem ela, um pouco menos de nós mesmos somos então.


Quinta-feira, Junho 18, 2009

O corte

Existe uma dor aguda da qual sempre me lembro: o corte de um canivete no dedo indicador, que por jeito desajeitado fiz bater a lâmina no osso do dedo, lá no fundo.
E sangrou.
E espirrou pelas paredes da casa de uma tia.
No quarto de uma prima.
Perto e em volta de um interruptor da Minnie.

Uma visita que estava na casa da tia:
- Coloca embaixo dágua.

Coloquei.
E sangrou.
Sangrou.

Alguém teve a piedade de avisar
- Tira debaixo dágua senão vai escorrer o sangue todo.

Enrola em um pouco de papel higiênico. E aperta.

Apertei, apertei. E parou. De tudo, restaram só as marcas na parede, que tratei de limpar com algum pano. Parecia cenário de livro ruim sobre assassinato.

Desde então nunca mais brinquei com canivetes de mil e uma utilidades.

A dor ainda consigo sentir, é funda. Ao menos não sangra mais.


Segunda-feira, Junho 15, 2009

Quando descobri que quem escreve as notinhas sobre si mesmo nos livros, na contra-capa, é o próprio escritor, me tornei um pouco mais triste.

Tinha aquela alegria boba de pensar serem verdades as frases porque, afinal, haviam sido escritas por uma terceira pessoa. Quando quem fala é o outro parece existir mais veracidade, mais certeza. Se eu falo sobre mim mesma, qual é o grau de credibilidade da coisa?

Mas eu tinha certeza que era sempre outra pessoa, assim como é outra pessoa quem escreve a orelha do livro, o prefácio, etc..

Então, só escrevo um livro se uma terceira pessoa redigir o 'quem sou eu' para a contra-capa. Assim me livro da vergonha de olhar no espelho e a imagem me acusar de prepotente e mentirosa. "Gislaine Bueno é formada em tal coisa, publicou tal livro e é conhecida por tal feito". Qual é o índice pelo qual você mede a veracidade do que acredita sobre si mesmo? Aquilo que os outros falam? Penso que o critério de auto-avaliação deveria ser aquilo que os outros NÃO falam.


Quarta-feira, Junho 10, 2009

Eu acho que você devia escutar mais Marina Lima.

Verdade...


Terça-feira, Junho 02, 2009

Eu podia, você sabe, ficar aqui falando e falando. Tem vezes que paro pra ler o que já foi escrito e dou risada. Ó só:

"A vulgaridade masca chiclete de boca aberta. E atrapalha o caminho dos transeuntes. À toa, sem motivo para estar lá. A vulgaridade expõe o mistério com obviedade, sem elegância nem graça. E grita, desmedida e inoportuna. À toa."

"E toda essa coisa de ambiente acadêmico acaba fazendo mal. Não permita que eu seja daquelas chatas que lançam livros a partir de teses de doutorado a respeito de... de... de coisas totalmente dispensáveis ao mundo moderno, como "o ritmo da minhoca-ruiva sob o pôr-do-sol primaveril e sua intrínseca relação com o método cartesiano". Ou viverei nesse mundo paralelo onde as coisas importantes viram abstrações presas em livros nunca lidos."

"Eu iria morar dentro de um globo de vidro, em uma casa posta de ponta-cabeça de tempos em tempos por curiosos entretidos com a chuva colorida de purpurina no meio daquele líquido viscoso e transparente, que seria o meu ar. Ao lado da casa, uma árvore. E um cavalinho, que sofreria de enjôo e tédio."

"Ela desejou chuva. Era a hora errada. Poças d´água de meio-fio, só dali a dois meses. Contentou-se com o estalar dos móveis na madrugada, pois agora já sabia - não eram monstros escondidos, só a "dilatação pelo calor". Menos intrigante, quase sem graça. Para manter o encanto, ficou guardando aquela certezinha de que a Física também pode errar de vez em quando."

Pára, que nostalgia também tem limite.


Por que é preciso correr, se todo o segundo chega sempre atrasado em relação ao anterior?


Segunda-feira, Maio 25, 2009

Eu vivo em um espaço em que, de repente, 'nossa, já é meia-noite'. Vivo entre mundos, sobre linhas e fios de arame, com um bom equilíbrio, sim, sim. Há um espaço no meio do tempo, quando as cores se espalham e se tornam mais clara para então virarem outras cores, nesse espaço eu estou. Puxo aqui e ali, como se fechando zíperes que saem de fora das páginas, mas se cruzam de forma que nem sempre têm ligação com algum trilho. Mas eu puxo.

Vivo num espaço em que o pôr-do-sol leva para cima todas as cores e elas ficam passando como em uma tela, se alternando, e é para isso que eu olho quando estou triste. Os minutos que passo indo de um local ao outro, gasto olhando para o céu e os prédios, as pessoas que estão também no espaço que é só delas. É comum me bater uma indignação: o céu é tão grande e a gente aqui, preso na terra, dando passos presos à gravidade de um planetinha? O céu é tão grande e caberia não só o mundo inteiro, como outros e outros. E daí que acho que céu não é lugar para aviões, eles não sabem aproveitar isso que chamam de liberdade, mesmo porque não a têm.

Esse é um espaço de vazios que eu tento preencher com copos coloridos, música no começo do dia, ligações de R$ 2 o minuto e outras pequenas coisas. Me pego pensando no que não gosto, nesse espaço, mas lembro que é tudo sempre temporário. Ao mesmo tempo, viver de espaços-tempos temporários dá a impressão de que nada será definitivo. Nunca vou estar no agora, nunca vou dizer: é isso, então é só aproveitar o aqui. É tudo temporário, não curto a música e o ar quente das três da tarde. É tudo temporário - quando será a hora de dizer: pronto?

É como ensinam na escola: nenhum traço é reta, é só um segmento dela.


Quinta-feira, Maio 21, 2009

Se o risolis é só a variação da forma da coxinha, se colocarmos frango nele, qual a utilidade da coxinha? É assim que as coisas se tornam obsoletas?


Segunda-feira, Maio 18, 2009

Trecho de "A soma dos dias", de Isabel Allende, a chilena. Um pouco de tudo que vale a pena.

"Este longo amor com Willie foi uma dádiva nos anos maduros de minha existência. Quando me divorciei de teu pai, Paula, me preparei para continuar andando sozinha, porque achei quase impossível encontrar outro companheiro. Sou mandona, independente, tribal, e tenho um trabalho pouco comum, que me exige passar metade do meu tempo sozinha, calada e escondida. Poucos homens aguentam isso. Não quero pecar por falsa modéstia, também tenho algumas virtudes. Você se lembra de algum, filha? Deixe-me ver, deixe-me pensar... Por exemplo: necessito de pouca manutenção, sou saudável e carinhosa. Você dizia que sou divertida, que ninguém se chateia comigo, mas isso era antes. Depois que você se foi acabou a minha vontade de ser a alma da festa. Me tornei introvertida; você não me reconheceria. o milagre foi achar - onde e quando menos esperava - o único homem que poderia me suportar. Sincronia. Sorte. Destino, diria minha avó. Willie garante que nos amamos em vidas anteriores e que continuaremos assim e, vodas futuras, mas você sabe como me assustam o carma e a reencarnação. Prefiro limitar essa experiência amorosa a uma só vida, o que já é o bastante.

Willie ainda me parece tão estrangeiro! De manhã, quando está se barbeando e o vejo no espelho, costumo me perguntar quem, diabos, é esse homem branco demais, grande e norte-americano, e por que estamos no mesmo banheiro. Quando nos conhecemos, tínhamos muito pouco em comum, vínhamos de meios muito diferentes e tivemos que ir inventando um idioma - espanglish - para nos entender. Passado, cultura e costumes nos separavam, assim como os problemas inevitáveis dos filhos numa família adotada artificialmente, mas à força conseguimos abrir o espaço indispensável para o amor. É verdade que para me instalar nos Estados Unidos com ele deixei quase tudo que tinha e me acomodei como pude à desordem da batalha da sua vida, mas ele também fez muitas concessões e mudanças para que ficássemos juntos.

Desde o começo adotou minha família e respeitou meu trabalho, me acompanhou no que pôde, me apoiou e me protegeu até de mim mesma, não me critica, se diverte suavemente com minhas manias, não deixa que passe por cima dele, não concorre comigo, e até nas brigas que tivemos ele me tratou com nobreza. Willie defende seu território sem alarde; diz que traçou um pequeno círculo de giz dentro do qual está a salvo de mim e da tribo: cuidado para não violá-lo. Uma imensa doçura se esconde sob sua aparência rude; é sentimental como um cachorro grande. Sem ele, eu não poderia escrever tanto e tão calmamente como faço, porque se ocupa de tudo que me assusta, desde meus constratos e nossa vida social , até o funcionamento das misteriosas máquinas domésticas. Apesar de ainda me surpreender de vê-lo ao meu lado, me acostumei à sua enorme presença e já não poderia viver sem ele. Willie preenche a casa, preenche a minha vida."


Domingo, Maio 17, 2009

Das coisas que irritam no mundo, consumismo está em primeiríissimo lugar.


Domingo, Maio 10, 2009

Você sabe o que existe lá em casa? Eu posso te contar um pouquinho, que é coisa que mal não vai fazer.

Existem quatro pessoas que moravam em seis cômodos, com seis cachorros e um gato, dentro da harmonia possível. É verdade que harmonia, nesse contexto, é uma palavra que toma sentidos variados, e pode ser aplicado a um ou dois quesitos ao mesmo tempo, no máximo, e nunca no todo. Pense em uma parábola, onde o objeto é lançado de baixo pra cima. A subida é lenta e gradativa. Até que chega ao ponto máximo. As quatro pessoas da casa chegaram ao seu ponto máximo. A situação de hoje é que três pessoas são reféns de uma. Que hoje deveria ter passado um dia especial, como em toda família que se preze. Mas o círculo - que é vicioso - de brigas, ameaças, descontroles e vitimização não deu trégua, e não dá trégua faz uns bons meses. O que acontece? Ninguém entende como uma pessoa consegue chegar em tal nível de histeria e chantagem emocional - que são as cores que dão o tom de qualquer relacionamento dela. Ninguém sabe o que fazer, ao menos agora se passou ao estágio de pensar o que fazer, já que antes não se fazia absolutamente nada.

No sábado eu me perguntava como três pessoas adultas simplesmente se tornam reféns de uma, de uma forma que envolve emoções tão duras como estas. Sentada no sofá ouvindo mais uma vez todas as lamentações sobre uma vida supostamente 'difícil', eu realmente não encontrava respostas. Não é plausível que três pessoas fiquem em silêncio apenas porque a quarta ganha tudo no grito. Não é plausível que todos estejam errado, todos os 70 personagens que já passaram pela vida da quarta pessoa.

Quando eu era pequena, a via chorando quase toda semana. A única hipótese que me ocorria era que o mundo era mau com uma pessoa tão boa. E que havia motivo, claro, para tanta tristeza e frustração numa pessoa só. Mas o tempo passou e o cenário só foi ficando mais sombrio, com intervalos de sol aqui e ali.

O que você diria para alguém que te faz o dia ser um inferno, e, no final te pede desculpas dizendo que te ama? O que você diria para alguém que te defendeu a vida inteira, que lutou para que tudo fosse mais fácil, e agora te cobra isso com frases como 'fiz tudo por vocês e agora estou sozinha?'.

Se eu pudesse dar um conselho para quem, de alguma forma, possa vir a passar por isso? É difícil enxergar um quadro tão perturbador como esse de forma clara. É preciso anos para começar a entender uma fagulha de um grande, enorme, assustadora fogueira.

Mas eu falaria que:
- Não deixe, nunca, que as pessoas à sua volta caiam na teia da vitimização. E que te levem junto, porque isso é contagioso. Não caia em historinhas do tipo 'ninguém me ama, ninguém me quer', que em geral é mais um truque (ainda que inconsciente) para te aprisionar.
- Não espere que as pessoas percebam os próprios erros. Ainda que haja um pedido de desculpas, veirifique se existem sinais de que há mesmo culpa, sinais de arrependimento de fato.
- Tire de si toda e qualquer ídéia de que alguma responsabilidade por toda essa loucura é sua. Ou que você pode criar uma saída, por conta própria.
- Mantenha-se a uma distância saudável.
- Abstenha-se de qualquer emoção para analisar da maneira mais correta. Sentimentos cegam nas horas mais impróprias.
- Analise o quanto de você é hereditário e o quanto depende de escolhas.
- E claro, não perca as esperanças. Foram vinte e quatro anos com a visão errada sobre um fato. Mesmo que ainda me restem somente mais 24 anos - nunca se sabe - , ainda é tempo de ver o cenário como um filme, e não mais como uma foto. Uma sequência que dê sentido a coisas repetidamente sem sentido.

Pronto. Agora você sabe metade da minha vida, se é que ainda não sabia. Não que isso mude alguma coisa, é só uma questão de subir a montanha e olhar láaa do topo. É bem diferente de ter o chão a um metro e meio da sua cabeça.

Fecham-se as cortinas. Entediado, o público vai embora e sou eu quem tem de apagar as luzes.


Lá (no blogspot) ficou muito chato. A outra opção é: eu fiquei muito chata. Mas essa descartemos.

Minha coleção de idéias está escapando pelo 14° andar de um prédio. Não que elas sejam suicidas, mas o ar lá fora sempre parece mais atrativo.

O que é bom: cenários novos, ruas diferentes.

Ruim: escrever por tópicos.

Ruim: uma folha em branco.

Neutro: detergente.

.


Sábado, Fevereiro 28, 2009

Caminhão de mudança a postos

Eu fui pra e aposentei esse daqui. Vambora?


Domingo, Fevereiro 22, 2009

Mudaram as placas de dentro dos ônibus. Antes, perto da entrada tinha o escrito "Não fale com o motorista". Perceba que agora a frase é "Fale com o motorista somente o essencial". Talvez tenham percebido que algumas pessoas precisam, sim, falar com o motorista. Quando vejo a frase de agora morro de vontade de cutucar o motorista e falar: "Jesus te ama". Ué, nunca se sabe qual o conceito de essencial de cada pessoa.

Para o seu Milton, morador da frente da casa, o essencial é podar as árvores e deixar os galhos na rua, ao lado da calçada. E ligar todos os dias para a Prefeitura, exigindo que passe algum caminhão para levar. Eles nunca passam, mas ele não deixa de telefonar. E continua a cortar os galhos.

Para a dona Maria que faz bolos, o essencial é não deixar a massa de pão-de-ló passar do ponto. E nem gatos destruírem o jardim com flores amor-perfeito, cometendo, se necessário, assassínio de gatos por veneno.

Para o Tio dos Pêssegos que a cada semana vem nos pedir um real, o importante é que entendam que ele realmente precisa desse um real, e que não irá gastar com álcool no próximo bar. Depois de meses vindo todo descabelado s maltrapilho, na última sexta-feira apareceu penteado, de barba feita e roupa social. Ainda assim, era essencial que mais uma vez ajudássemos com uma moeda. De um real.

O conceito de essencial, portanto, é variável. Há os que acham essencial trocar de carro todo ano. Ou comprar roupas de marca. Muitos são os que têm como prioridade abrir mão da margarina para comprar mais pães.

E assim é, com mais ou menos cores.


Quinta-feira, Fevereiro 19, 2009

"A maioria das pessoas perde a vida toda, sabe? Olhe, a vida não se trata de você estar no topo de uma montanha vendo o pôr-do-sol. A vida não é ficar de pé diante do altar, nem o momento em que seu bebê nasce, ou aquele dia em que você está em águas profundas e um golfinho nada a seu lado. Esses são fragmentos. 10 ou 12 grãos de areia espalhados em toda sua existência. Não são a vida. A vida é você escovar os dentes, fazer um sanduíche ou ver o noticiário, ou esperar o ônibus. Ou andar. Todos os dias acontecem milhares de diminutos eventos, e, se você não os observar, se não tomar cuidado, se não os capturar e fizer deles algo importante, pode perdê-los. Pode perder toda a sua vida."

Depois de escrever é nítido que soa auto-ajuda por demais. É trecho final do livro 'Tudo se conta', de Toni Jordan. Acho que o final e a aparência dele não demonstram com dignidade que é sim uma ótima história.




*

Aqui, no ônibus, a cada ponto uma voz informa qual é o nome da estação. E quais conexão você poderá fazer descendo na próxima parada. E pede para evitar as proximidades da porta 3, para facilitar o embarque e desembarque. Deveriam dizer que tem de ficar longe da porta porque, há alguns dias, ela abriu com o ônibus em movimento e uma mulher morreu atropelada. Os avisos nunca dizem o essencial.

Tsc.

Por aqui, é verdade, as pessoas ligam menos uma para as outras. Também não param para cumprimentar cachorros, elas têm pressa. E sempre sabem para onde vão. Tenho pequenas metas ao andar, chegar aqui e ali, estender um pouco o caminho mais umas quadras, mas guardar bem na memória as placas. Se tivesse migalhas as jogaria pelo caminho, tantas as placas e sons e bancos e praças e sinais de trânsito.

Na reunião da clínica onde está (mais uma vez) minha mãe, a psicóloga dizia algo como "um circulo vicioso de culpa e punição", "é preciso ter paciência e perseverança", e outras frases. Ela não chegou com roupa branca, como a psiquiatra. Claro, psicólogos não são médicos e eu demorei a entender a lógica dessa frase. Chegou foi com uma camisa super colorida, rosa, azul e mais tons. Sandálias de tiras horizontais pretas sobre o dorso do pé. Sete tiras. Uma tiara grossa que parecia uma faixa de cabelo e deixava uns fios dando a impressão de chifres. Não me lembro a cor da saia. Tinha bochechas cheinhas, lembrando uma tia. Eu estava mais interessada em terminar o livro do que ouvir a histórias dos parentes de internos, mas a gente se obriga a ser, no mínimo, receptiva. O que é diferente de gentil.

Uma das mulheres na sala sugeriu a alguém que tivesse mais atitude que ela: "era bom ligar esse ventilador, tá tão abafado, né?". Lá foi um dos rapazes subir na cadeira e mexer no ventilador que estava grudado na parede. Era vermelho, do tipo bem antigo. O aparelho. O rapaz era novo. Ligado, o vento batendo de canto a canto do espaço de quatro metros quadrados ou pouco mais, a moça do pedido agora pergunta, como se fosse coisa normal de dizer: "alguém aí tem problema com vento?". Claro, eu tenho. Tive um trauma aos seis anos de idade, quando meu gato teve a cabeça cortada por um ventilador de teto, ao pular de cima do armário.

***
Não, eu não falo da vida profissional porque tenho medo que seja um tremendo fracasso. Total e pleno fracasso.

*
Os primeiros selos colados nos primeiros envelopes que enviei aqui pelos correios precisavam de cola. Perguntei ao rapaz do lado se não seriam autocolantes, ele disse que não, mas na Inglaterra são. Perguntei porque uma cidade tão grande, capital chamada de primeiro mundo não teria selos autocolantes, ele apenas assentiu com um 'pois é'. Ontem, ao pedir os mesmos selos para cartas de até 30 gramas, a funcionária teve a decência de me dar um autocolante. Estamos mais próximos da Inglaterra. Não que eu queira.

*
Os minutos são mini-martelos pressionando minha cabeça, de lado a lado, em sentido anti-horário e sem pausa para o almoço.


Quarta-feira, Fevereiro 11, 2009

Do nada

As pessoas sacolejam por aí carregando suas certezas. E têm alívios temporários, e se atrasam e se arrependem e esperam tudo outra vez. Cansei desse espaço, desse jeito meu de falar sozinha e não ter paciência de ficar conferindo se há alguém ouvindo. De necessitar de feedbacks espontâneos, de aguardar o que acaba precisando de um empurrãozinho para acontecer. A Soninha (Francine) tem razão em uma coisa (talvez em outras também), que é perguntar sempre 'por que' ao fazer qualquer coisa, ao pensar no que já é feito há tanto tempo e não se questiona mais. O Rubem Alves também tem tanta razão ao dizer que é necessário reitrar todas as cores da parede para só então descobrir qual era sua fora original. Raspar, raspar e retirar camada por camada. E repintar de um jeito novo agora, de forma consciente e voluntária.


Este espaço está obsoleto.


Domingo, Janeiro 25, 2009

Nesse link está uma notícia que me chamou atenção. O título é: Em 5 anos, 1.150 brasileiros somem no exterior.

O Ministério das Relações Exteriores (MRE) registrou 1.150 casos de brasileiros desaparecidos no exterior nos últimos cinco anos. Mas o próprio órgão reconhece que esse não é o número exato, uma vez que muitos parentes não relatam os sumiços e outros não avisam quando as pessoas são encontradas. Há também pessoas que não estão desaparecidas - simplesmente não querem contato com os familiares.

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Então pensa: nada de grave aconteceu com elas, não foram raptadas, não tiveram seus órgãos roubados, não foram mortos pela máfia, tampouco minguaram sem emprego nas ruas frias de algum país estrangeiro. Elas apenas não querem mais falar com a família que está aqui no Brasil. São pais, filhos, irmãos com as quais os viajantes - quem sabe fugidos justamente desses parentes - não querem mais contato. Simples assim. Elas não são de meias medidas. Não suporto mais olhar pra cara daquele parente que só enche o saco? Vou cruzar o Atlântico. E pronto. Não basta ir para outro estado brasileiro, nem outra cidade, nem tirar o número da lista telefônica. É preciso pegar três voos com conexões diferentes, não legalizar a situação no país e não deixar pistas sobre o verdadeiro nome e endereço. Ufa, isso dá trabalho. E quem poderá julgá-los? Exceto, claro, se lá do outro lado do oceano resolverem, agora, formar uma nova família, com filhos, cunhados, sogros, sobrinhos... Mas o mundo é grande, e se a paciência passar da validade, há outras centenas de lugares longínquos onde nenhuma embaixada alcança. É um jeito de levar a vida, e não é?


Sábado, Janeiro 24, 2009


Tudo já foi dito, tudo já foi escrito. Não há nada de novo, o mundo é só o renascimento do mundo.


Quarta-feira, Janeiro 21, 2009

Musiquin

Quando alguém me desaponta
Paro tudo e dou um tempo
Dali a pouco eu me dou conta
Que ninguém é cem por cento

Seja um príncipe ou um sapo
Seja um bicho ou uma pessoa
Até mesmo um pé-de-nabo
Tem alguma coisa boa

'Pé de nabo', do Palavra Cantada



Segunda-feira, Janeiro 19, 2009

Mosaico

Você sabe qual é a merda da vida? É o desejo. Se todos fôssemos budistas, 90% dos problemas estavam resolvidos. Não haveria frustração nem agonia porque o desejo também não iria existir. Se existisse, não ocuparia tanto espaço na mente e no coração. Querer um lápis com ponta que não quebre já é o ponto inicial pra um grande despespero. E por mais que seja totalmente consciente, fora do rumo passional que a maioria das coisas tomam, ainda aborrece. O aborrecimento tem o peso de uma bigorna de desenho animado, cai no pé, jogada por quem quer te sabotar ou fazer o público rir. Mesmo sendo pesado, pode caber em uma caixinha, manter-se no criado-mudo pra dar boa noite e bom dia. E é só.


Sábado, Janeiro 17, 2009

Impressão

Ele consegue comer bolotas de arroz, eu não. Sempre preciso dividir com o garfo, e quando a comida está fria, exige mais força na mão. Alguns grãos caem fora do prato. E não me dou bem com o fundo queimado de arroz na panela. Mas o que cheira mal mesmo, quando passa do ponto no fogo, é feijão.

Já viu nhoque com molho vermelho misturado a strogonof de carne? A aparência não é boa, não é mesmo. Lembra vômito com pedaços grandes de alguma coisa de dentro da gente. Lembra lavagem, outras coisas ainda piores. Secreções, excreções humanas. Mas só se você olhar bem.



Cubo mágico

O conflito entre a forma e o conteúdo por vezes me toma espaço na cabeça. Dali a cinco minutos estou a arrumar o quarto, remexendo nas gavetas. Tenho tremenda dificuldade de jogar coisas fora. Alguns psicanalistas explicam com um conceito nada bom de se ouvir: problema na fase anal. Nem vem, não é tão raso quanto parece.

E aí se acumulam meus preciosos lixos. Não consegui ainda me livrar doslivros de interpretação de textos da sexta e da sétima série. Nem de diários escritos desde os onze anos de idade; agendas de colégio, faculdade, serviço. Bloquinhos de anotações da época do jornal!

Presentes: blusas que não me servem mais, porta-retratos quebrados, bonecos de resina, capas de cds, fitas cassetes, bilhetes escritos por 37 pessoas diferentes (um dia escreveu algo e me entregou? aposte que ainda está guardado).

Contas pagas.

Incensos que não serão mais usados.

Pilhas (!), que periodicamente (uma vez a cada dois anos?) são jogadas fora em ataques de decisão repentina.

e mais. Eu me esforço, mando ordens expressas para o cérebro. Ele é quem recua. Da última vez que coloquei uma agenda no saco de lixo de 100 litros que sempre me acompanha nas arrumações do quarto, ela ficou no fundo do plástico por não mais que cinco minutos. Pensei em me testar. Colocar tudo, tudinho que citei (e mais) no pacote, fechar, e levar para a frente de casa. Em seguida, desisto.


Nas listinhasde desejos encafifados na cabeça, tenho um apartamento (casa, sabe Deus), totalmente minimalista. Poucos móveis, quarto branco, armários disfarçados nas paredes para não serem percebidos. Uma sala com muito espaço e janelas grandes. Quadros aqui e ali, com pouca estampa. Pé-direito alto, três, cinco metros. Espaaaaço.

Você sabe, tudo isso é bobagem. Do externo para o interno acaba sendo um grande passo, nem sempre alcanço com dois pequenos pés.


Sexta-feira, Janeiro 16, 2009

Tudo bem, não tenho o talento que desejava ter, mas ainda tenho idéias, e elas ainda têm acento, porque são minhas e porque assim as quero.

As imagens também nos alimentam, por isso o sistema agora é a troca de imagem ali de cima a cada novo texto. É o mínimo de alterações nesse mundo tão cheio de novidades, creio que é possível absorver essas poucas informações sem muito trabalho.

E só.


Quinta-feira, Janeiro 15, 2009

Perdi totalmente o jeito com a criação de templates... Passei do tempo, envelheci, não atualizei os novos e sempre mais novos códigos, no mundo que vaialém do HTML.


Terça-feira, Janeiro 06, 2009


Escolhas


Disse uma amiga que é muito comum pessoas optarem por cursar faculdade de Psicologia para entenderem a si mesmas. No primeiro dia de aula, questionadas sobre o motivo de sua escolha, em geral é isso que falam. "Porque quero entender a mim mesmo". Seria errado, de acordo com o ponto de vista da amiga, porque na realidade o curso e a atuação são voltados para o outro, acima de tudo. E quem deseja entender a si mesmo provavelmente não tem estrutura emocional para descobrir ou repensar seu 'eu' sob a visão da psicologia e suas diversas linhas. É fato.

Isso de ter um conceito voltado para si mesmo acontece também no Jornalismo. Lá, na pergunta do primeiro dia de aula, a resposta: "Porque gosto de escrever", não basta. Teria de ser "porque gosto de escrever para o outro", afinal, não bastam minhas idéias, minha aprovação, é sempre para o outro. É nele que se percebe a validade ou não do trabalho, por mais que a satisfação seja plenamente pessoal. O barato da vida é ver que para o resto do mundo, o outro sou eu, enxergando de fora para dentro.



Sexta-feira, Dezembro 19, 2008

Afinal, isso é um blog pessoal

A vida na ociolândia é, obviamente, tranqüila. Há muitas horas estendidas no varal, todas esperando pacientemente o vento passar e levar cada gota d´água. Eu acompanho essa expectativa morna, que às vezes esfria e a gente trata de sacudir novamente. Para isso, entramos cômodos adentro, quarto-sala-cozinha, e cada um tem lá seus atrativos.

Nada que supere a geladeira, mas a cama tá quase chegando na mesma pontuação. Temos também a televisão, que trata de entreter com mais ou menos bobagem, de acordo com a hora e o canal. O filme 'before sunset', ou antes do pôr-do-sol, acho, já vi quatro vezes em poucos dias. Ou vi meus dias quatro vezes em poucos filmes, como preferir.

Aliás, a preferência conta muito porque é possível ir até a padaria por um simples quindim. Sim, dá até para escolher o caminho, se pela rua do lado, que reúne, em seus prolongamentos, ao menos nove cachorros. Many, Pingo, Wid, Tico, Banzé, Boneca, Peluda e outros. Vale lembrar que a Boneca é um dos pitbulls mais dóceis da cidade. E que a Peluda veio da feirinha do Fauna, e que antes dela, morava na casa, com outros moradores, o pastor alemão Bóris, com quem eu sempre conversava mas só fui saber depois que passava fome, que seu dono mal o alimentava. Um dia liguei para a casa do Bóris.
- Olá, eu sou a menina que sempre passa aí para ver o cachorro.
- ...
- Ele tá bem? Tá muito magrinho...
- Ah, ele tava doente, mas agora já está melhor.
- Então tá tudo bem com ele??

Eu não devia ter me contentado com a resposta, mas acreditei, e não devia mesmo. Depois que soube, já não havia o que fazer, sem meios de localizá-lo pela pequena-grande Ponta Grossa.

Então, as escolhas. É muito divertido contar com um leque abstrato de escolhas. Misturando o tempo que corre no relógio com as cores do dia, mais as possibilidades reunidas em um par de pernas e um bom fôlego, além das ruas que saem de frente da minha casa e, como rios e mais rios, percorrem o resto do bairro (que desagua em outro e em outro), dá para fazer coisas infinitas. Verdade. Pergunte se eu faço. Ok, não pergunte. Não me obedeça também, que tipo de idiota é você?

Então, então. Claro que agente acaba encantado com o mundo colorido, vasto, incrível que é a ociolândia. Mas tudo o que é vantagem, nesse mundinho, também é seu oposto, e nos engaiola. As opções abrem um horizonte que não é alcançável pelos olhos, sequer pela imaginação. É um abismo em que não se vê nem o fundo nem o eco consegue percorrer tamanha distância. É um espelho com outro em frente, com imagens a se perder de vista.

Nunca fui boa com escolhas, há quem diga que sou impulsiva. A escolha pressupõe o abandono de outra coisa, a que não é escolhida, e não é bacana rejeitar opções, elas podem ter sentimentos.

Tudo isso, para quê, me pergunta o mouse óptico, com sua luzinha vermelha que brilha quando se coloca ele de pernas para o ar. Eu o olho com desconfiança, ele é ligado a um centro nervoso por um fio, que espécie de dependência é essa?, então o desprezo. Ele insiste, insiste, é do tipo chato e tagarela. Cansada, confesso sem olhar de frente - que aí seria pedir demais, claro - que a ociolândia, sonho de consumo de 9 em 10 serezinhos com apêndice recolhido, tem prazo de validade. E tenho medo que ele vença, porque ate agora tudo está indo bem demais. Não quero que aconteça como o pão Nutrella, que chegou na terça-feira no armário e já hoje tinha manchas verdes de bolor, pipocando como catapora. E sem aviso-prévio. Serei pega de surpresa, e no momento será apenas um suspiro, seguido por um pensamento adiado ao máximo... 'ufa, cansei de não fazer nada'.

Satisfeito, agora? Como o tipo de pessoa que todos odiamos - as que só se movem com empurrões, ele não me responde, com sua luz de um vermelho ridículo que não se encaixa nem no batom mais vulgar. Tens a confissão, tens o fracasso anunciado em forma de palavras vãs. Dorme agora, que pouca coisa ainda resta.


Sexta-feira, Dezembro 12, 2008


Há sacolas, mundaréu de gente e também o ar abafado. E é difícil andar pelas ruas, tem de fazer esforço para se misturar com as pessoas. Ufa, ao menos é possível parar sob as marquises e fingir esperar sabe Deus o quê. Entrar em uma loja qualquer sem ser importunado por vendedoras. Não, você não pode me ajudar. Se pudesse, moça, gostaria mesmo? Mesmo?

Pode-se, com o calor, fingir pressão baixa e pedir que avaliem sua saúde arterial na farmácia. Os atendentes quase sempre são simpáticos, exceto quando têm vários clientes para satisfazer, como aquele senhor ali, de camisa cor de abóbora, ele tem três receitas diferentes e não lembra qual é a dosagem. E de 10 para 100 miligramas a diferença é só um zero a mais. Não? Não. Ah, os atendentes de farmácia. Assim como os de feira, é preciso certo traquejo na hora de pedir conselhos. Não me vá perguntar porque, sendo o mesmo remédio, o preço é diferente, em coisa de mais de R$ 15. Poucos saberão dizer, raros confessarão que o mais barato foi menos testado e apresenta prevalência de ataques epiléticos em 4% dos usuários. Mais raros ainda serão os que em você perceberão apenas uma crise de carência, dizendo: "não precisa de remédio não, moça, vem aqui que te dou um abraço. Pronto, agora vai até a padaria e compra a melhor e maior bomba de chocolate que encontrar. Não esqueça de um telefonema para amigo querido. Mãe nessa hora não é boa porque vai fazer perguntas demais, e no final arremata com um 'eu nao disse?' quando você contar que uma de suas tantas ilusões foram frustadas. De novo. A parte boa é que você vai economizar R$ 24 e, tirando os R$ 3,50 da bomba, poderá ainda aplicar em uma boa tinta de cabelo. Que mulher quando quer mudar de vida é isso que faz, não é? O resto, guarde para um cachorro-quente de rua, que é coisa simples mas prazerosa. Tenha uma boa tarde. O próximo, por favor". Quantos desses eu encontrei? Nenhum, mas me fica a sensação de que uma moça quase agiu dessa forma, sendo impedida pelas câmeras de segurança repressoras e a moça do caixa, de batom vermelho, que guarda sob o teclado do computador uma lixa pois não suporta unha lascada.

Ela ia me falar coisas importantes. Iniciou com um suspiro, inclinou-se sobre o balcão de vidro, olhou para o lado da caixa, por dois segundos me olhou fundo nos olhos, numa tentativa de passar a mensagem. Era muita pressão, compreendi. Para compensar, pedi mais duas ou três aspirinas e agradeci pela atenção. Boto fé que na próxima, talvez, ela consiga, quem sabe o meu caso não fosse tão grave. Aquela menina que ali entra agora parece ter maior agonia, será que há então maior merecimento? Ora bolas, lá vai ela, inclina-se, devagar, olha para o balcão de vidro. Vai agora olhar para a menina? Agora, agora? Faz correr a portinha de vidro do balcão. Alcança um simples pó de arroz. E entrega para a menina. Merecedora coisa nenhuma, nem suspense existia naquela alma. Vejo que a atendente mostra certa decepção. A mensagem permanece com ela, e às vezes muda de sentido, como as frutas que só nascem nessa ou naquela estação. E caem de maduras, e não são colhidas, e nem ninguém sente seu sabor, e apodrecem, e viram adubo.
(Sobre frutas não saboreadas, lamenta especialmente pelo limão, que, cheio de variedades em uma mesma fruta, carrega sucos, doces, aromas, o verde mais bonito dentro de si. É verdade, o rapaz que a convidou duas ou três vezes para sair deveria já ter percebido seu gosto por limonada. Não o fez, o tolo)

Ela aguarda o momento exato, que tem de chegar junto com o cliente ideal, o que carrega nos olhos a expressão de desepero contido, mas ainda assim passível de explosão, ainda que para dentro. O que seria uma implosão, claro. Nesse dia, é para acontecer a mistura exata de empatia em via dupla, em que não será preciso mais do que os passos em direção à atendente para que, através do som dos sapatos, ela saiba que é a hora correta. Nada naquela pessoa, nem os poros do rosto nem a sujeira na gola da blusa, nada irá enconbrir o que deve ser dito, o que deve ser feito. Por essa expectativa e certeza, a atendente passa por cima da tristeza e perdoa a menina que não tem a riqueza de alma suficiente. Perdoa inclusive os passantes da calçada, que têm mais o que fazer do que buscar mensagens cifradas no rosto de uma moça de pele branca, branca.

O perdão, ela o concede de forma gratuita. Se pudesse, diria, a todas as pessoas, não só àquela afortunada que deve chegar um dia à frente do balcão e ler de maneira definitiva as razões de as coisas assim serem, mas todas as que passam pelo seu trabalho, e no ônibus, diria que elas estão perdoadas. Por não dar esmola, por gritar com os mais velhos, não esperar o sinal ficar verde e até por uma ou outra mentira, daquelas cabeludas. As mais amenas nem de perdão precisam, diria junto. Por outro lado, sabe que pousar a mão no ombro de desconhecidos pode soar estranho. E é tudo, mesmo, estranho, um conjunto de peças que não apresentam lógica, exceto se vistas sem a exigência de entendimento. Ela sabe disso e de muito mais. Só não é do tipo arrogante, e você não imaginaria que além de buscar medicamentos em prateleiras altas com a ajuda de uma escada, ela ainda chega em casa e arranca a página do calendário ainda antes de ser o dia seguinte. Porque antes de o dia começar, antes de o 'hoje', terminar, tem de se pensar que vai chegar o próximo. O outro, o seguinte também. Assim acabam os motivos para encher a noite de desesperança. Pinga duas gotinhas de limão sobre o travesseiro, não são nem onze horas, mas dorme.


Quarta-feira, Dezembro 10, 2008



Sozinha, a dificuldade estava em encontrar o que queria fazer, ser livre exige sabedoria. Três horas podem passar sem que a vontade seja descoberta, lá no fundo. "O que mesmo eu quero fazer? Ah, eu posso fazer qualquer coisa".
Sublimava desejos. Pensar sobre ela é desenhar uma imagem torta no espelho, que se sobrepõe à figura real projetada. Ela passou anos desenhando com canetinhas coloridas sobre a imagem espelhada. Pintou aqui e ali, depois não lembrou mais como era antes. Como era mesmo antes?


Domingo, Novembro 02, 2008

Dois ou três toques no teclado

As palavras, eu as tenho. Sinto a vontade de ordenar as frases, construir textos. Mas acontece que acabo sucumbindo. Ao dia, ao mundo já tão cheio de páginas escritas.

Sou a pessoa do arrependimento que antecede o ato, não fazendo nada, portanto. É dessa forma que não vou morar na Bahia, que não escrevo um livro, que não declaro verdades só minhas.

*

A vida e o filme

Tenho pra mim que qualquer vida teria mais sentido se transformada em roteiro de filme, de onde é possível perceber a lógica do início, dos fatos que ocorrem e persistem, do cenário atual... Viver somente o dia, olhar somente para o que houve na semana ou ano acaba sendo muito limitante. Existe certa coerência, acredito, entre fatos, independente da beleza de cada um.

A abstração é sempre a melhor fuga. Sempre imaginei de maneira ilustrativa a expressão 'sair pela tangente'.

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Após comprar um Pica-Pau de pelúcia, ou melhor, recheado de bolinhas de isopor, em uma esquina de Castro, uma mãe arrasta a criança pela mão. O menino pergunta: "ele fala, mãe?", segurando o boneco ainda dentro do plástico. A mãe, com amargura de pessoa sem infância: "Fala coisa nenhuma. Isso é só dinheiro jogado fora!". Não sei se minha dó foi maior da criança ou da mulher. Mas penso que se há magia na infância os adultos devem fazer um esforcinho para mantê-la.

O preço do Pica-Pau, a propósito, é R$ 25.

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Nessa semana ataques a bomba a mercados indianos deixou centenas de feridos e quase 80 mortos. Era hora do almoço, momento do dia em que os locais estão mais cheios.

Ainda nessa semana um carro explodiu (atentado com bomba) na Universidade de Navarra, na Espanha. Por ser hora do almoço, quando estudantes não estão nos blocos, os destroços atingiram um número razoavelmente pequeno de pessoas.
Dois locais, mesmo horário, significados distintos.


***
Igual aos sites e emails, em que, após inserir senha e login para entrar, a mensagem de confirmação é exibida ao usuário, antes do parto a pergunta à criança deveria ser:

Você está prestes a entrar em um mundo inseguro. Tem certeza de que deseja fazer isso?

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"Pelas ruas o que se vê é uma gente que nem se vê e nem sorri", dizem eles, para em seguida vir com esperança: "no entanto é preciso cantar, mais que nunca é preciso cantar...".
Marcha da quarta-feira de cinzas



Quinta-feira, Outubro 16, 2008

Minha alegria, meu cansaço...

Se você notar bem essa página, pessoa, verá que os temas são cansativamente os mesmos. Os monólogos versam sobre tempo, saudade, crescimento, cura, multidões, solidão, preguiça.

E eu continuo a sentir necessidade de escrever, mesmo com essa inércia negativa que me toma há tanto tempo. O que eu não digo aqui, no entanto, ocupa ainda mais espaço do que os escritos. São idéias e frases que chegam até mim, rodeiam, rodeiam e, como deixo passar tempo demais, vão embora. Muita vezs magoadas, percebo.

Acho mesmo que é a proximidade do aniversário, mas junta uma quantia curiosa de sentimentos nesse 1m59 de corpo que não é mais tão magro como há poucos anos.

Não sei se é influência astral ou hormonal. Deus ou a novela. O sequestro da menina de 15 anos, talvez.

O fato é que não vi nada no livro "O apanhador no campo de centeio".
Que gostaria de passar três dias em outro lugar (Bahia?).
E que nunca fui uma festa à fantasia.

Diria até que odeio utilizar tantos 'ques' na escrita.
E, quem iria imaginar, tenho um emprego aceitável, ou, me aceitaram em um emprego.
Ainda acordo de madrugada com a certeza de ter visto uma aranha passeando pelos cobertores. E acendo a luz, e chacoalho a cama. E penso 'putz, fiz isso de novo'.

E ainda não conclui se o que prende é a identificação ou a diferença entre as criaturas.

E no dia 19 vou poder dizer uma coisa muito idiota que de tão boba é legal:

Há doze anos eu tinha doze anos.


A saudade chega com uma música. Pode ser de pessoas, mas muito mais de períodos. Das quatro ou cinco meninas que já fui, sinto falta de quase todas.

Daquela que tinha trejeitos desajeitados, vergonha de andar entre muita gente.

Da outra que se abalava daqui até outra cidade para ver alguém que amava. O que muda, então, ao longo do caminho?

A que se julgava independente, a que se acovardou e a que pulou em um buraco de olhos fechados estão ainda por aí, sorrindo em álbuns de fotografia. E tem aquela que, hoje, não escreve mais.


Tudo o que vale a pena um dia morre.


Sábado, Outubro 11, 2008

É verdade, é concretude que me falta. Não carne e osso, não tecido. Concretude nas palavras, cimento nas idéias, as escritas no papel. Eu concordo com isso, mesmo que nunca tenha sido dito. Concordo, aliás, com a maioria das coisas que jamais foram ditas. As já faladas por aí, em compensação, carecem de razão.

Nunca fui a voz do conhecimento, o poço de sabedoria. Não afirmo se o filme A ou B é 'clássico' ou não vale a pena o ingresso. Nem se o livro é pós-moderno e se aproxima do vanguardismo europeu à la qualquer-coisa. E deixo até a crise financeira pra lá.

Acho curiosa a necessidade de andar com a razão presa na garganta. Aquele tipo de pessoa que, na fila do pão, gosta de mostrar que tem tanto conteúdo quanto bolo marta-rocha.

Me perdoe, mas os ódios são parte minha como as unhas. Mas, se me perguntares do que tanto tenho ódio, garanto, não terei a resposta na ponta da língua. Porque volta e meia a queimo na pressa do chocolate quente. Poucas, saiba, são as respostas que carrego prontas. Após as perguntas que naturalmente surgem no cotidiano, como andar na calçada ou na beira da rua, linhas e linhas de sílabas se juntam para resultar em uma coisa decente. Das certezas, duas ou três ainda me acompanham, pulando de bolso em bolso quando troco de roupa. Tudo bem, admito que gostaria de abandoná-las, esquecê-las presas na máquina de lavar. Jogar pelo ralo, sim, sim.

Das coisas que me incomodam no mundo, na vida e nessa loucura de dormir-acordar, a morte ainda é a mais forte. Não por medo de ir, eu mesma, embora do aqui, sumindo lá longe, virando uma substância etérea, joaninha em outro jardim. Meu medo, saiba, é a perda das pessoas. Antes a obsessão era com desconhecidos. Sabia da morte de um ator lá de Piracicaba, um senhorzinho do Rio Grande, a zeladora da faculdade particular e pensava: 'puxa, quanto devo ter perdido em não ter conhecido esse sujeito'. E me arrependia, juro. A ansiedade de conhecer o mundo, no meu caso, é a ansiedade em conhecer pessoas. E a perda, como dói a perda. São centenas de Marias de quem jamais ouvirei histórias. E tem a vendedora de cocada que passava todo dia por perto, e logo quando pensei em convidá-la pra um café, já não mais podia. Perdi muito com esse desconhecimento que, teoricamente, eu mesma não daria conta de modificar. Porque, obviamente, as pessoas continuam a morrer, mesmo que eu nunca tenha ouvido seus nomes. São meninas de 7 anos, homens com 32 e nenhuma família, ou o de 18 e três filhos, um com cada mulher. As casas em que nunca entrei também me doem. As cidades que não vi, igualmente, arranham minha garganta cada vez que tenho sede. Mas as pessoas que conheço e amo, sobre essas em geral evito pensar em relação ao 'último dia'. Que afinal nunca saberei quando será. E aí fica a pergunta: para quantas delas de fato confessei meu carinho? E quantas delas têm noção do que isso modifica em mim? Dessas mesmas criaturas, quantas terão uma vida boa para dizer, ao final: 'bom, do que desejei, quase tudo alcancei'. Em números, me diga, quais seguirão ao meu lado pelos próximos anos? E por último, mas não menos importante: quantas delas terão a paciência com essa doida que escreve, a mesma paciência que tiveram para chegar até o fim desse texto?

Eu sei, não se preocupe, que um dia a gente se cansa de perguntar. Nesse dia, será, ironicamente me chegarão as respostas?


Quinta-feira, Outubro 09, 2008

Eram muitas bolinhas de vidro, cada uma com cores vivas e diferentes. Juntas, formavam cenários, imagens e pessoas. Ele definia aquilo como sonhos e gostava de brincar com a infinidade de figuras formadas a partir de tão lindos tons.

Os anos passaram. Chegaram o tédio, a conformidade e a desesperança. As imagens criadas jamais se tornaram reais, palpáveis. Do mundo limitado pela sua mente, nenhuma delas conseguiu criar vida.

Com um martelo gelado quebrou todas as esferas coloridas. Uma a uma, esparramando o líquido bonito, que logo escorreu no primeiro ralo do caminho. Preto e branco, dentro dos vidrinhos, escaparam por não chamar atenção no momento de fúria. Desde então, noite após noite, ele sonha em tons monocromáticos, em uma seqüência que não surpreende, apenas repete o dia-a-dia cinza durante a noite fria.


Domingo, Setembro 28, 2008

"Se eu conseguisse expressar as coisas, não precisaria dançá-las". Tem autor, mas não lembro.

A arte de que gosto é bastante... sem especificidade. Gosto de dança, teatro, música. Mas existem os momentos apropriados para de fato conseguir enxergar a beleza nisso tudo. Em geral, é durante a noite. Dançarina nunca fui, mas a dança e suas expressões me intrigam.
Atriz, sou menos ainda, o que não me impede de entender o encanto de viver em vários mundos sendo um só.
Tocar instrumentos ou compor melodias também não está entre meus talentos, mas, enfim, já deu para entender a lógica da história.

Houve o dia em que percebi que todas as coisas que funcionam e existem, e têm continuidade, (exceto a natureza), de algum forma são executadas e pensadas por uma pessoa. Por centenas, milhares. Cada uma a sua forma. A independência do homem, desse ponto de vista, não existe. Eu dependo do transporte público, que envolve um sem número de pessoas. O ônibus dependeu dos operários que o construíram, que dependeram de um empregador, que dependeu da cozinheira que lhe preparou a refeição no restaurante caro, e assim vamos. A produção e confecção do mundo atual mostra o quanto é impossível isolar-se das outras bilhões de pessoas, ainda que chatas, ainda que mesquinhas, ainda que, muitas vezes, insuportavelmente melhores do que nós.

E me chama atenção que, mesmo dependentes até o pescoço, a publicidade que mais faz sucesso é a que prega a independência. Ou, a "liberdade de escolha". São lindo anúncios voltados para um mundo umbilical, aquele que nos mostra o quanto somos gênios, belos, espertos e... diferentes do resto do mundo. O que é a mais pura mentira, afinal, o que existe à minha volta me liga com qualquer outro ser humano. O ar que respiro me conecta com qualquer um. A história da mãe que acaba de perder o filho para o tráfico é como a minha, a sua, a do vizinho. Choramos pelas mesmas coisas, desejamos ítens de consumo parecidos, entristecemos a partir das mesmas notícias. Identificar o 'eu' no outro é essencial para não desenvolver instintos homicidas, ou, em alguns casos, suicidas.

É isso que me assusta quando vejo a progressão geométrica da violência no mundo, e cada vez mais perto de mim, da famílias, dos amigos. Não existe mais, ou, talvez nunca tenha existido, um limite entre 'eu' e o mundo 'malvado' lá fora. A corrupção, mesmo, com que todos se indignam, atacando posturas políticas antiéticas com belas palavras, é tão comum na minha vida quanto na de Cacciola. O cinismo utilizado pelos 'políticos' quando algo de podre vem à tona, é o mesmo que uso para disfarçar derrotas, fingir vitórias e mostrar que ainda tenho razão, mesmo diante do mais óbvio erro cometido.

Entender o que o outro pensa pode ser assustador. Mas traz uma proximidade reconfortante, penso eu.


Quinta-feira, Setembro 25, 2008

"Eu ia, mas desisti.
E desses impulsos não realizados faz-se a minha vida".

Escrito aqui nessa página em novembro do ano passado. Pouca coisa mudou, pensando

do ponto de vista da frase.

Na verdade eu gostaria de ser um personagem do Schultz.

Mas essa não é a questão. Concordo com a Marília, que disse esses dias em um dos

comentários que a profissão nos suga. Eu, que gostava tanto mais de escrever por

aqui, abandonei a área. Graças a Deus não comecei a escrever com lead no blog...

Em todo o caso, é bom quando, do tempo que sobra, algo é dedicado a pensar a

esmo. Nas últimas semanas tenho andado no 'automático'. Entrando de ônibus,

escrevendo, voltando em ônibus, dormindo.

E, novamente, cansei. E o que importa, não é mesmo?


Domingo, Setembro 07, 2008

Deve ser porque não há vontade, mas o fato é que não escrevo mais. Fora o jornal. Que é obrigação. E os textos, em si, não empolgam.

Mas veja bem...

Cansei.


Segunda-feira, Agosto 25, 2008

Pelo avesso é igual do contrário

O fato é que me encho de coisas desimportantes na internet e na hora de escrever tenho sono. Porque escrever não é fundamental. Poucas coisas, pouquíssimas, o são. A descoberta das tais é o que direciona a vida dos homens. Afinal, se tu é um só e corre atrás de 129 coisinhas julgadas tão essenciais para tolerar a vida, em desvantagens certamente estará. Se, do contrário, as 129 coisinhas atrás de ti corressem, mais certo seria a vitória. Delas, claro. Sabe que não sei conjugar o verbo fazer na 2ª pessoa do singular? Futuro, exatamente. Não sei usar o tu. E você, o que não sabe? Talvez devêssemos compartilhar o que não sabemos, o mundo todo. A união traz sempre algum resultado. A da ignorância também teria o seu. Se reparar bem, crase também não sei usar, eu.

Mas veja, se o cenário muda a cada vez que tu olhas (repare agora o 's' no final, sendo a pessoa a mesma), és tu mesmo o mesmo? Não teria sido tu a mudar o ponto de vista?

Veja, e não é a quantidade que faz a estrutura de um grande amor, disse a Maria (Rita) ao cantar com uma voz de forte desconsolo.

Acho mesmo que as pessoas cantam porque não têm força para bater. E, às que batem, talento falta.

A verdade é que... não tenho um grande leque de verdades a serem defendidas. Aprendi que a saúde é o único bem a ser preservado, e que de resto os acúmulos mais atrapalham que ajudam.

E que não aprendi quase nada estando já com 23 anos e 10/12 (dez doze avos). Considero-me atrasada em relação ao mundo, que não me deixa dormir sem a sensação de tempo fugindo. Sabe como é que o tempo foge? Ele se esconde atrás de um ponteiro de relógio parado, e quando se vê, foram-se embora longos minutos. Por que raios o tempo é uma constante nesses textos? Deve ser porque não dá para o texto ser uma constante no tempo.

Assim como não nasce unha onde não existiu antes dedo. Claro como água limpa, perigoso como água turva.

E tudo o que posso te dar é solidão com vista pro mar, porque eu não sei dançar tão devagar pra te acompanhar, disse a Marina (Lima). E a identificação, assim como o ódio, dá uma mão para fazer o mundo girar daquele seu modinho igual e medíocre.

Se todos os homens nascem com as mesmas chances, se todos têm teoricamente o mesmo ponto de partida (o ventre), há algo de perverso que chega e parte com um raio o ar respirado logo em seguida ao nascimento. Alguns vivem bem até os cinco, outros até os 13 e três meses. Mas algo maior que a pressão atmosférica age, separando o gosto bom do paladar, adicionando um tanto de azul escuro frente aos olhos (que então acha até o vermelho menos vivo).
Não pense você ser isso melancolia, não pense você ser isso alguma coisa, porque é como argila molhada. A gente junta, junta, faz vasinho alto e se orgulha. Mas é pó, ainda assim. Mesmo sendo você o máximo dos máximos, ainda humano será.

P.S.: Ainda não descobri com quem tanto falo, mas não é porque não há ninguém ouvindo que não deva ser dito.


Segunda-feira, Agosto 04, 2008

"É tarde, é tarde,
o tempo urge,
a vida arde,
é tarde, é tarde, é tarde"


Coelho, da história de Alice.

Desde as primeiras compreensões sobre a vida, ainda poucas, ainda bobas, descobri a historinha do tempo. Ela estava em toda parte, fábulas, sinal de escola, barriga roncando ao acordar, na primeira morte de criança de que tive conhecimento, nas unhas crescendo apesar do esforço do cortador.
Eram palavras explícitas ou conselhos subliminares.
Pensando no futuro percebo o desejo de permanecer no local onde o tempo não passa. Ou não demonstra correr. Campo, pequenas cidades, escolas de crianças.

Não sei controlar o passar das horas, me surpreendo com as datas, sempre próximas demais ou esquecidas, e aí, distantes demais.

Hoje mais um quarto de casa acaba de ficar um pouco vazio. Minha irmã, aprovada em um concurso de banco, muda-se para Curitiba por alguns dias e para outra cidade ainda desconhecida nas próximas semanas. Meu pai, em Curitiba a trabalho, aproveitando a casa por ele aqui construída somente aos fins de semana. Em um descanso de conta-gotas, em contagem regressiva para a aposentadoria.
Eu, indo pra cima e pra baixo, duas horas de viagem diariamente por tempo indefinido.

O tempo é amigo próximo da indefinição, pente desembarançando longos cabelos sobre costas curvadas.


Domingo, Agosto 03, 2008

O espelho

Tenho uma pequena letargia
Que atinge lenta, lentamente
Coração, mente, mãos...
Periodicamente


Quinta-feira, Julho 17, 2008

As piores horas do dia são as últimas. Sendo eu uma pessoa razoavelmente controlada, a tendência é sempre explodir nas horas de folga.
Só fico doente nos fins de semana, feriado e após as 18 horas. Mas isso não muda a sua vida.


Sexta-feira, Julho 11, 2008



"Descendo a escada são doze degraus, estreitos que parece o pé o maior do mundo. Tendo dez dedos cada um e sendo cada degrau uma cidade, a tripulação viaja parando na beira de cada estrada".
Foi indo, foi indo e formaram as formigas uma fila até parece que sem querer. Judia delas não, menino, tanto trabalho pra catá as folhinha e carregá... Esse quando crescê vira bandido, disse a vizinha, aquela, ela chacoalha os peitos quando dá risada, de grande que é. Ela sua debaixo do nariz e depois passa a mão e enxuga atrás da blusa.
Todo dia isso de querer sair na rua depois das dez e meia. Já disse que não presta andar sozinho tão tarde. Depois da janta senta lá fora e fica como que batucando na perna. Mais uns tempos e não duvido já tá que nem o pai. Aquele começou a querer ficar sozinho e sem mais nem menos tava chorando. Um dia peguei ele atrás da porta fazendo o sinal da cruz com a chave, afundou a madeira até, tem a marca ali ainda.
Faz tempo que não tem novela boa...



Domingo, Julho 06, 2008

Escolher por não optar já é em si uma opção

O que eu sinto é que as palavras mudam de idéia dentro da cabeça. E a melhor imagem que descreve a sensação de não escrever aqui durante um tempo grande, sim, bem grande do meu poto de vista, é um grupo de crianças tristes que não podem brincar no pátio da escola. Ainda que ele seja enorme, assim como a vontade. Ainda que haja sol e céu azul e um campinho de queimada logo ali do lado. E mesmo sendo recreio.

Sabe como?

É que a internet de casa viajou por quase um mês, voltando só ontem. Essa dependência do teclado para escrever de fato o que gosto é incômoda. Tenho lápis, papel, caneta, mas não me animo. A rapidez das teclas se tornou um ítem indispensável. Rapidez, rapidez. Tenho de me convencer que o essencial é a escrita, não os modos usados.

Não gosto de lamentos, mas tem me causado certa frustração o fato de não carregar todos os dias uma máquina fotográfica e um gravador. Até os levava na bolsa, mas passou a não caber depois que o espaço teve de ser dividido com bloquinhos, doces, canetas e um monte de bobagens. Gosto de carregar o mundo na bagagem. A máquina faz falta porque sempre há um momento único que quero guardar; uma árvore sozinha em um descampado; uma mãe segurando a mão de dois filhos pequenos; o sol se dividindo na grade de um portão. O gravador, para não perder o tom das conversas diferentes ouvidas pelo caminho daqui até a outra cidade, diariamente.

"Antigamente os ladrão era aqueles que não tinha nada, não tinha estudo, não tinha nem roupa direito. Hoje esse povo estuda pra roubar di nóis, usa paletó, tem tudo na vida e tá robando”.

Daqui a Castro, em ônibus de turismo, são cerca de quarenta minutos. Em geral as pessoas não são sempre as mesmas, já que o ônibus faz a linha Ponta Grossa-São Paulo. A maioria já sai da rodoviária dormindo. Mas sempre tem um ou outro que emenda na conversa, ao menos nos 40 minutos em que estou lá no ônibus.

A linha metropolitana leva mais de uma hora e é aquele aperto. As pessoas estão quase todo dia de mau humor, calejadas das dificuldades de ir de uma cidade à outra de modo tão desconfortável. “É esse stress todo dia, deuzolivre”. A mistura de gente, expressões do rosto que eu morro de vontade de fotografar (no mínimo passaria por doida) e falas aleatórias é o que me distrai nesse tempo e me faz ver os dias de modo diferente. A doida do metropolitano.

Durante as próximas duas semanas, editoria policial. Juro que não me agrada a idéia. Mas experiência não se deve jogar fora. Se tudo der certo, ao menos até o final do mês eu permaneço no jornal. Jornal diário, jornal diário, jornal diário. Ficar repetindo isso, me parece, ilustra bem a rotina do trabalho. Eu já falei sobre a grande vontade de trabalhar com jornalismo na área de saúde? Tudo bem, já tenho uma página semanal em que escrevo sobre saúde, mas ainda... ainda é muito ainda.

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Em uma entrevista com o sub-chefe da viação (que faz a linha metropolitana), esta pessoa se irrita com as perguntas a respeito das penalidades que recaem sobre o motorista em caso de excesso de passageiros no ônibus - o que, obviamente, é uma coisa totalmente absurda - e, do alto de sua sincera ironia, começa a provocar.
- Mas qual é a sua opinião sobre isso? Se você comete um erro é a empresa que tem de pagar por você? O motorista tem de pagar a multa sim, e o cobrador divide as despesas com ele!
- Meu senhor, não estou aqui para dar a minha opinião, só preciso saber como a empresa age nesses casos.
- Ah, então você não tem opinião? É uma jornalista sem opinião?? Jornalista sem opinião...
- Se eu colocasse minha opinião na matéria a viação não iria gostar nem um pouco...

A discussão foi improdutiva, mas no fim a matéria saiu. E nessas situações eu me divirto um monte ao invés de me estressar. O que me deixou curiosa foi a frase do tal moço. Jornalista sem opinião. Do modo como soou fica parecendo algo como... cirurgião sem bisturi? Psiquiatra sem receituário? Massagista sem mãos?

Ora, pare com isso. Sou só a doida do metropolitano.


Domingo, Junho 01, 2008

Memória

Clichê dos clichês, a brevidade dos nossos dias já não é assunto quente. Mas hei de falar sobre isso. Minha noção de tempo não é exata. Conto meus dias pelas sensações marcantes deixadas pelas situações. Esqueço o que comi no almoço de ontem e me recordo da expressão do rosto de estranhos na rua. Mágoas guardo poucas, no fim de cada ano ficam as boas impressões e o melhor de cada pessoa em minha mente.

Mas vim aqui pra falar da necessidade de guardar lembranças físicas. Sempre achei que o melhor seria lembrar dos dias e criaturas com o que sentimos, mas vejo que o tempo acaba apagando nossas mais preciosas memórias. O tom da voz, os gestos sutis, o jeito de suspirar antes de sentar ao sofá são detalhes sobre as pessoas que minha memória deixa escapar ao longo dos anos.

Ainda que essas mesmas pessoas constantemente afastem-se de mim por inúmeras variáveis, as lembranças delas devem comigo permanecer. E teimam em fugir quando eu menos espero.

Num desses livros bobos, pequenos e fáceis de ler sobre as mudanças bruscas da vida, uma sugestão me atraiu a atenção, há mais de anos: "Grave a risada de seus pais".

Acostumamo-nos com fotografias. Mas elas não transmitem metade das informações sobre as pessoas. Por esse motivo, na última visita à minha avó de Curitiba (ainda ontem), tomei a liberdade de filmá-la conversando comigo. Foram dez, doze minutos de uma fala totalmente espontânea sobre alguns pedaços da vida dela. "Mas vai me mostrar com esse cabelo assim?" E ela contou que uma de minhas tias nasceu sem a ajuda de ninguém, quando ela, minha avó, estava sozinha esperando a parteira.

Arrependo-me de não ter feito isso há pouco mais de um ano, quando meu avô aqui estava e tinha muitas, muitas histórias pra contar. E, independente de qual delas me contasse, queria eu ter registrado aquele jeito dele de falar "ô, seu menino!". Quisera eu ter esse lampejo antes.

Das vontades que tenho, registrar as pessoas falando sobre suas vidas é uma das que ainda vai me mover a criar um projeto de jornalismo voltado pra isso. Não sei como nem quando. É mais uma das idéias.

Afinal, o que as pessoas conhecem mais do que a si mesmas, do que a própria vida? É nessas horas que os olhos delas brilham. E você pergunta: o que foi que aconteceu em tal época da sua vida?

Gosto de saber o que as pessoas mais prezam naquele momento. O que consideram erros, o que mudou de dez anos pra cá, do que se arrependem.

E desejo preservar cada palavra que delas ouvi, se possível guardar as frases em uma caixinha. Guardar dentre as tantas que tenho com pedacinhos de pessoas. Antropofagia, quem diria!

Gosto de pessoas porque sou todas que encontro por aí. E elas são muito de mim. É verdade que não percebem isso quando atarefados atravessam meu caminho. Mas eu não acharia nada estranho se um pedestre apontasse em minha direção, do outro lado da rua, dizendo a todos: "olha, um pedaço de mim!".


***Não é sempre que gosto de pessoas. Existem momentos em que não consigo nelas enxergar qualidades ou, deixo de ver que seus defeitos são perdoáveis. Afinal, são humanas e, como tais, passíveis de erros. É bastante difícil tolerar egoísmos, falta de consideração com os demais, falta de amor pelos outros seres (descaso com animais me deixa muito nervosa), mesquinharia. Porém, é quando começo a apontar os defeitos dos outros que percebo minha pior falha: cegueira diante do espelho.


*****Em tempo:

O trabalho de conclusão de curso "Neuroses - um vídeo-documentário sobre depressão e ansiedade", de minha autoria e da senhorita Patrícia de Marchi Scarpin acabou ganhando o 2º lugar do Prêmio Sangue Novo no Jornalismo Paranaense, concedido pelo Sindicato dos Jornalistas e Profissionais do Paraná.
Ainda não sei bem o que isso significa, mas sei que o troféu (apenas um para as duas) terá guarda compartilhada entre eu e Patrícia pro resto da vida. Há!
Também sei que de algum modo minha carreira de jornalismo deve dar certo. Ainda que meu futuro não seja na quase nati-morta revista de decoração que produzi nos últimos meses. Ainda que eu tenha raiva de publicidade e propaganda. Ainda que eu tenha feito coluna social.

É, amigo, e tem gente que se surpreende com futebol.



Domingo, Maio 25, 2008

E se eles querem meu sangue, verão o meu sangue só no fim. E se eles querem meu corpo, só se eu estiver morto, só assim

Definitivamente me tornei uma pessoa mais positiva. Já fui adepta da idéia "pior do que está não pode ficar", aprendendo em seguida que sim, tudo pode piorar.
Já partilhei da idéia do Charlie Brown (ou do Lino?) - "Acho que a melhor maneira de resolver um problema é evitá-lo. Nenhum problema é tão grande ou tão terrível que você não possa correr dele".
E já me escondi. E já fugi. E dormia, muitas horas. Já comi em frente à tv, sem a mínima satisfação, ainda que a geladeira fosse a própria promessa de felicidade.
Também já me revoltei com o mundo, já me alimentei da raiva e até gostei do impulso que o ódio me causa. Inclusive em certos momentos acreditei, de fato, que é o ódio que move o mundo. Isso porque eu via que boas intenções não são garantia de aceitação nem de sucesso nos atos cotidianos. E, cá pra nós, o desejo de vingança e vontade de atingir o outro de maneira negativa nos dá muito mais gás e vontade. Mas não altera a realidade do mundo alheio - nem próprio - de maneira significativa.

Certo.

Eu já fiz isso, aquilo e aquele outro. Mas a questão é: estou extremamente mais calma atualmente. Não solto fogo pelas ventas nas situações que antes me afligiam de monte. Não brigo no trabalho, não trato as pessoas mal e não me ressinto quando escuto uma crítica - e pode até ser não tão boa assim.

U-hu, quase um ser iluminado. Ok, devo admitir. Pessoas ainda me deixam indignada. Mas de maneira... branda. Alguns dirão que estou me conformando com a vida ou desistindo de partir para uma boa briga. Mas conflitos nunca foram o meu forte. Sou pacífica por natureza.

E o que você tem a ver com isso, caro e invisível leitor? (Inexistente leitor? Talvez... amigo imaginário?)
Não sei.

Eu não sei o que você tem a ver com isso assim como não sei o que ainda me leva a escrever aqui.

**

Mas eu acho que a gente morre um pouquinho a cada intervalo do jornal. Acho também que o fim do mundo está bem mais próximo do que esperamos. Existe uma profecia que afirma ser o ano de 2012 o último dos seres sobre a Terra, não? Eu não sei. Não sei porque não sou uma pessoa muito bem informada, apesar de ter feito Jornalismo na faculdade. Contradições da vida, sabe?

Caro amigo, tenho a dizer que realmente tenho perdido minha capacidade de indignação. Sabe um carregamento de laranja sendo despejado em uma esteira de fábrica? Elas todas rolando, sem que uma se diferencie da outra, tendo sempre o mesmo destino? Tornei-me uma laranja. E isso não é bom. É preciso buscar a antiga lucidez. Se te perguntarem o que te diferencia dos outros 6 bilhões de humanos do mundo, o que dirá? E o que te diferencia te faz melhor ou pior? É só mais um, entre tantos outros?

Que pena.


Sábado, Maio 17, 2008

Toda forma de comunicação é um engano. Resulta em um engano. Nunca de fato é a transmissão exata do que se pretendia. Então deixemos de lado a necessidade de explicar tudo a todo instante.


Segunda-feira, Maio 12, 2008

Em breve, de volta a escrever.

Não que haja expectativas. Ou público.

Enfim...


Sexta-feira, Março 14, 2008

A palavra estava ali, na ponta da língua. Por medo de pular, afogou-se na saliva.

Medo de altura é coisa comum, pois.


Porta-retrato

...e todos os vultos encontrados acabam se dispersando, exceto aqueles que a gente faz questão que fiquem, quase convidando para uma xicará de chá em meio a fotografias. Senão, as expressões marcadas na parede só vão tomar conta da sala quando aquela música tocar. A sala, já totalmente modificada desde então, sem os mesmos móveis e até a pintura refeita, sem a plantinha no canto esquerdo e o monte de revistas empilhadas, vai ter luz própria. Mesmo sem nada, nada referente aos fantasmas, impressos hoje em estatuazinhas de resina. Ora, refazemos tudo pro reinício simbólico da vida a cada 31 do 12. Por isso me traga aquela flor e faça o favor de não me irritar, a música foi trocada mas a mania de repetição ainda não foi embora. Aliás, as manias são as mais insistentes, vão-se embora somente no último instante, quando conseguimos substituí-las por outras ainda mais penosas. Cadê aquela vela em formato de estrela que estava aqui? Não, eu não acho que todos um dia perdem o seu idealismo. Porque, como eu sempre disse, desistir do sonho é parar de alimentar a alma. E a minha ainda tem fome, nesses tempos de escassez. Talvez eu tenha jogado fora a vela, mesmo sem tê-la usado, e acho que tinha cheiro de... morango? Velas com cheiro são boas invenções. Mas esses dias vi no mercado sacos de lixo com cheiro de frutas. Era... limão para metais, uva para papel, laranja para vidros e... como era mesmo? Não sei, li por alto quando engolia um lanche rápido. E apareceu um moço no portão dizendo: "tem alguma coisa pra dar?" e eu ia estender a mão e oferecer um abraço, mas duvido que ele aceitaria. A gente oferece aquilo que tem, então lembrei de pegar um quilo de arroz no armário, mas o pacote já esava aberto. Foi aí que vi o tanto de gelatina acumulado na despensa. E nem era tempo de festa junina, quando as crianças pedem "prenda" nas casas e a coisa mais fácil de dar é gelatina... Mas entreguei pro rapaz algumas moedas guardadas no fundo da bolsa e algumas roupas numa sacola, ele sorrindo e dizendo "eu levo pra minha irmã" e saindo, andando até o fim da quadra e virando a esquina. Mas a bolsa, sabe, não tem mais tantas moedas quanto antes. É que as padarias têm colocado aviso dizendo "agradecemos aos clientes que pagarem com moedas"... Sim, grande parte da riqueza do país está nas moedinhas, mas não me importo muito com elas não. A riqueza e as moedas. Foi semana passada que você deu de cara com a criança te espiando no vestiário do clube? Eu acho que você fez bem em reclamar com a mãe do menino, mesmo ela tendo gritado pra todo mundo que você era uma sem-vergonha. Sinceramente, as pessoas estao muito sem criatividade. Eu, particularmente, prefiro os dentes-de-leão às marias-sem-vergonha. Falando nisso, vieram aqui em casa perguntar se eu tinha interesse em colaborar com a colocação do asfalto na minha rua. A mocinha, toda suada no rosto e segurando a pranchetinha marrom, coitada, insistiu comigo dizendo que se um dos moradores não aceitassem pagar as centenas de reais, em até sete vezes, a rua não poderia ser asfaltada. Você veja, eles vêm pressionar, coagir mesmo, colocando a culpa da precariedade do bairro na gente! Ora, minha filha, eu falei, eu já pago imposto, já pago a taxa do lixo, já pago pra prefeitura deixar eu morar nesse pedaço de casa. Aí você vem e me diz que se eu não pagar os vizinhos vão ficar sem asfalto? Não foi o prefeito que prometeu asfaltar quinhentos quilômetros de vias? Então manda os vizinhos cobrarem dele, que eu não prometi nada a ninguém. É verdade que ela fez cara de brava e disse "então, boa tarde pra senhora". Achei ainda a moça um tanto elegante, não perdeu a pose nem quando o gato preto atravessou na frente dela, enrolando o rabo nas pernas morenas. O que eu não contei pra moça suada é que ainda tenho certo gosto de ver passar aqueles caminhões pesados aqui na rua, que eles levantam poeira e logo depois vem a vizinha da frente varrer a varanda e reclamar que por aqui não deviam passar caminhões daquele tamanho. Varre, varre, entra em casa e chacoalha todos os lençóis da cama e arruma de volta. Tem vezes que ela fica brava e recolhe a roupa molhada do varal, acho que vai pra lavanderia e coloca na máquina de novo, porque dali a meia hora corre estender de novo... Aquela sua colega de serviço ainda tá procurando gente pra trabalhar na casa dela? A que trabalhava pra mãe tá sem serviço e grávida, mas ainda de uns três meses, já tem dois em casa e eu digo pra ela se cuidar, mas não adianta. Ela aceita meio-período, por dia, por mês, é bem esforçada. Diz que o marido quebrou a cabeça na porta, quando a polícia entrou de sopetão na casa procurando droga, mas não tinha nada não e mesmo assim reviraram tudo, aí foram encontrar escondido no fusca da mulher que mora nos fundos, e na fotografia do jornal saiu o carro, a droga, as casas da vizinhança e o marido dela na frente da casa, com a cabeça sangrando. A manchete dizia: "Polícia apreende cinquenta quilos de cocaína na favela São João". Daí o marido foi procurar emprego no mercado dali de perto e o gerente perguntou "não foi você que saiu no jornal esses dias?", e olharam pra ele de cima a baixo. Aí até explicar que não tinha nada a ver com o trem... Eu sei é que tenho medo que algum dia um grande mal-entendido estrague a minha vida. E não sei não, se eu encontrasse uns cem mil na rua, acho que ficava pra mim mesma. Quem é que devolve, hoje? O senhorzinho que devolveu o dinheiro perdido no seu táxi foi chamado de otário pelos amigos. Grandes amigos esses, não? Eu até podia procurar o dono, mas daquele jeito, meio por cima, torcendo pra não encontrar. Teve um dia em que achei vinte reais no chão, mas veio uma moça com outra moça e foi mais rápida, colocou o pé em cima e já abaixou pra pegar. Saíram rindo as duas, que nem dezesseis anos deviam ter. Ah, deixa pra lá... Eu fico assustada sabe com o quê? Com aquela vontadezinha de que o mal aconteça com quem foi ruim pra gente, com quem falou grosso ou passou por cima do nosso orgulho. Semana passada eu guardava um rancor daqueles que martelam "quem aquela pessoa pensa que é pra falar assim?", daqueles que nos dizem boa noite a acompanham no café-da-manhã. Passaram uns dias e soube que a pessoa tinha se envolvido em um acidente de carro, nada muito grave, mas bom pra causar um prejuízo. Aí é que me veio aquela vozinha, dizendo: "viu, viu? bem feito!". Eu acho que se tivesse um espelho na minha frente a imagem diria, com tom de reprovação: "tsc, tsc, tsc". Então eu me recolho com cara de quem fez coisa feia, abaixo a cabeça e pego minha vassourinha. Eu varro, varro e só levanto o olhar quando passa a vergonha. Penso é que quando as pessoas vão embora, ficam os vultos. Assim como tem gente que pensa que depois da morte os espíritos ficam vagando aqui por perto. Os vultos de quem vai embora nunca abandona quem um dia esteve em sua companhia. Você deve ser o vulto de muita gente, sabia? Não fala com seu pai há quanto tempo mesmo? Acha que ele não tem remorso disso? Acaba que ele vai virar um vulto pra você, cada dia maior, e no dia que disserem "o PT já foi um bom partido", você vai derramar umas lágrimas sem querer, vendo o vulto crescer e crescer. Aí vai pedir licença e ir ao banheiro no meio do almoço de negócios. Tudo porquê? Por que você criou um fantasma na sua vida, sem precisar. Que eu tenho a impressão de que alguns fantasmas são inevitáveis, mas os que a gente pode transformar de novo em pessoas de carne, osso e sorrisos, é bom fazer isso logo. Uma hora ou outra a gente consegue interpretar tudo o que já passou, e todos os vultos encontrados acabam se dispersando, exceto aqueles que a gente faz questão que fiquem, quase convidando para uma xicará de chá em meio a fotografias. Senão, as expressões marcadas na parede só vão tomar conta da sala quando aquela música tocar. A sala, já totalmente modificada desde então, sem os mesmos móveis e até a pintura refeita, sem a plantinha no canto esquerdo e o monte de revistas empilhadas, vai ter luz própria. Mesmo sem nada, nada referente aos fantasmas, impressos hoje em estatuazinhas de resina. E sabe o que eu acho, de verdade? Os vultos e o idealismo têm muito em comum: precisam ser alimentados de tempos em tempos.


Quinta-feira, Março 13, 2008

Eu espeeero... acontecimentos.

Antes eu não gostava de Marina Lima. Nem de tomate seco. E eu podia ficar aqui te falando coisas idiotas como "você vê como é a vida, camarada...". Mas, não. Mesmo porque eu nem sei quem é você. Apesar disso, fico aqui falando e falando e... Sabe que nunca admiti erros de português. Não comigo. Esses errinhos bobos são como de repente descobrir o lado criança de cada pessoa. Aquele que não aprendeu direito como conjugar os verbos ou usar o L e o U, como em "alto-estima" e "auto-astral". E é verdade que se pensarmos em pessoas odiosas apenas como as crianças que um dia foram ou os velhinhos que serão, acabamos por perder toda a raiva mantida a ferver o coração. Só que também sou daquelas que acredita na existência de crianças maldosas e idosos filhos da puta. E que mortos não viram santos: "ah, coitado, era um homem tão bom". Ser criança ou velhinho não é o passaporte para uma boa índole. São apenas... caricaturas. Ou estereótipos? Pouco importa.

E pra você, o que importa? O que realmente importa?

A transitoriedade de pessoas, sentimentos e verdades ainda vai te enganar. Enganar tu, ainda que eu tenha me referido a você. Se eu tivesse talento, escreveria Roda-viva, teria olhos verdes e belas histórias sobre a boemia artística do Brasil. Pensando bem, se meu sobrenome fosse buarque, ia eu preferir virar nome de dicionário. Que é daí que saem as palavras. Ou, ali que se instalam elas, sem querer sair na hora de nossa necessidade.

Rubem Alves sempre fala sobre a trsnsitoriedade. E diz que se tivesse de escolher somente um alimento para a vida inteira, escolheria a sopa. Eu, a massa de croissant. Rubem se refere a Deus como um menino brincando conosco, seus brinquedos. Rubem defende a liberdade do sentimento. Rubem acredita que sentir ciúmes significa ter consciência de que o ser amado pode encontrar em outro lugar o que tanto tentamos ofertar e que, sim, existe sempre melhor oferta. Rubem acredita na música como exercício vital para a imaginação.

Rubem em mim não acredita porque não tem conhecimento de que eu exista. Assim como milhares de outras eus estão por aí sem que eu saiba de suas vidas. Eu, um pedacinho de mil elas. E um pouquinho dele também. O que nos une é somente o ar, assim como peixes são ligados pela água.





...aprendera que a ausência é lugar de destroços.
Cíntia Moscovich

Gislaine Bueno, Curitiba, PR. 24 anos.
Jornalista.
email:
gislaine_gomes_bueno@hotmail.com


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