Te convido pra ir pro novo blog, mais uma tentativa de continuar o que era legal aqui.
Segunda-feira, Dezembro 20, 2010
Eu ia, mas desisti.
e dos impulsos não realizados faz-se a minha vida.
Terça-feira, Dezembro 07, 2010
Ela foi ouvir o coração da cadelinha. Encostou o estetoscópio no pelo sujinho dela e com uma concentração absoluta, parou de respirar para ouvir.
E foi assim, às 10h38 de hoje, que eu decidi mais uma vez ser médica de animais.
Segunda-feira, Dezembro 06, 2010
PASSAGEM DO ANO
No final das contas vou acabar virando veterinária. No final das contas acabo usando o Twitter, mas ainda com a sensação de "eu que não entendo pra que serve ou tô perdendo algo que não sei?",
No final das contas vou acabar me casando. E tendo dois filhos, vinte cachorros, uma ONG!, uma casa na cidade e uma chácara com cavalos e ovelhas e galinhas.
Depois de 26 anos acho que não preciso mais de terapia, mas provavelmente vou continuar indo.
"O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão"
Terça-feira, Outubro 12, 2010
Tudo junto fica bem igual
Demorei, mas descobri.
Por várias vezes olho pra moças na rua e, oh!, ela sou eu, eu sou ela, o que é que há?
Sim, uma moça parecida comigo que chego a duvidar que eu sou eu, se isso é assim, ela não é ninguém mais que... uma segunda eu?
Roupinha parecida, ar meio blasé, um jeitinho sem sal que dá dó, até o sapatinho baixo com fivela. Um cabelinho escorrido, cara lavada e uma falta de acessórios que deixa qualquer roupa cinza ainda mais monocromática. E os tons pastéis da blusa e da calça, então? Igualzinha. E na auto escola, ainda. Com aquela cara de "alguma-coisa-vai-acontecer-nalgum-momento-mas-tô-esperta". Resumindo: menina songa-monga.
Mas, como eu dizia, não é uma vez que acontece, só, não. Na rua, voltimeia encontro dessas aí, que nem eu. Tudo bem, os estilos hoje se misturam, as influências, de tão cruzadas já formam um conjunto só. Tudo é um todo, diz meu pai, e tem razão. A Unilever, a Coca-Cola, o Google, é tudo a mesma coisa e dominou o resto que não é mais quase nada. Enfim, as pessoas estão bem parecidas entre si. Os meninas classe média alta são "indies". Parecem todos do Los Hermanos. As meninas, lencinhos no pescoço, cachecolzinho colorido, uma jaquetinha emo e pronto. E o batom vermelho, então, que voltou à moda? Ah, mas agora não é mais vulgar, agora é totalmente alternativo. E as cores neon anos 80? Somos todos semáforos indies de all star andando por aí. Reivindicando uma individualidade que é nossa, só nossa, claro. Identidade múltipla ou coletiva, sei lá o que é isso.
Então, elas sou eu, e todas somos iguais. Se duvidar também confundem workaholic com patchwork, como eu. E até gostem de yoga, por mais que achem body balance mais atual.
Mas o que eu descobri, mesmo, que está lá no início do texto, é que os traços do rosto é que puxam essa identificação inicial. "Putz, esse nariz ali, não é o meu?". Sobrancelhas grossas, então... Um nariz mais avantajado e uma sobrancelha grossa, junto com uma pele meio envelhecida por falta de filtro solar, com uns vincos no lado de dentro das bochechas. Pronto, deve ser minha gêmea. Certeza que também usa meias de cores diferentes quando está de sapato fechado.
Quinta-feira, Agosto 26, 2010
Existe um tempo na vida em que tudo se congela. Os fatos acontecem em uma sequência normal, como metrô entrando e saindo da estação, com atrasos pequenos que não formam um padrão, mas tornam o ir e vir meio parecido, sem ter como diferenciar as seis da tarde das seis da manhã.
As pessoas continuam a fazer suas coisas desimportantes, presas à terra e ao relógio - tenho de fazer isso hoje, senão... E esse grau de importância que é dado a essas mesmas coisas, acho que é isso que torna a vida mais fácil. Porque se pagar a conta na lotérica ou entregar aquele relatório não assumir esse tom de "essencial", nada mais será, nada mais será feito. E, olhando de forma chata e pequena, poucos cacos são realmente fundamentais em um mosaico gigante que é formado por dia atrás de outro dia.
Poucos cacos, bem poucos. A maioria deles é uma distração pra gente, não é preciso enfrentar o real todos os dias. E, nesse meio tempo, ufa, ainda bem que deu tempo de fazer tudo o que eu precisava fazer.
E ainda me surpreendo com a burrice de não salvar os textos longos que escrevo no editor do blog, porque acabei de perder metade desse.
Merda.
Terça-feira, Agosto 10, 2010
A corretora de imóveis ou seguros tem um nome que não combina com ela. Ainda são cinco da manhã mas o sono foi embora há dez minutos. Eliana encara a luz do poste que entra pela cortina e sabe que não há absolutamente o que fazer agora. Logo passa o tio dos salgados com o carrinho barulhento de rodinhas enferrujadas. Essa é a hora da bexiga apertar, travando uma batalha com a inércia absoluta, a preguiça de dar cinco passos até o banheiro. Os passos não são seu maior problema. A operação envolve a mobilização dos ossos e músculos, o tatear em busca do interruptor, dez segundos sentada na privada. Também é arriscado fazer todo o trajeto só para descobrir que o papel higiênico acabou e ainda faltam três horas para o mercado abrir. Hoje é um dia desses em que a luz do poste está especialmente clara, as rodinhas do tio do salgado passam fazendo tic tic tic e o papel higiênico já havia pulado todo para a lixeira horas antes.
Ontem no jornal passou matéria sobre infecção urinária. Pode surgir em mulheres que demoram muito para fazer xixi, muitas horas com a bexiga cheia. Isso significa ter de lidar com antibióticos, aquela história de ter de tomar a cartela toda sob a ameaça dos médicos: “se parar antes, a bactéria volta mais forte”. Inferno. Quem se esquece de comprar papel higiênico, afinal, esquece também de coisas menos importantes. Bolinhas coloridas em uma cartela de alumínio. E se a infecção piorar pode precisar de cuidados alheios, e não há boa opção nesse caso. Tias, a avó evangélica, a vizinha das unhas sujas. E também vai ser preciso faltar ao trabalho e a mocinha que começou na semana passada na corretora usa um quilo de maquiagem e, num dia qualquer, poderá mostrar que tem algum tipo de talento além de saber combinar três cores de sombras nas pálpebras. Olá vó Carminha, adeus emprego. Pronto, em meio minuto de suposições decide que é melhor ir ao banheiro. Um banho e pronto. Água corrente, sabão e o xixi escorrendo pelas pernas, mais quente do que a ducha. Livres da infecção urinária, pronta para o trabalho e ainda não são nem seis horas da manhã.
Domingo, Julho 04, 2010
A mulher que precisa encontrar um erro no extrato bancário da empresa é assim. Teve três dias para entender o problema que poderia ter acontecido. Na véspera, não havia dormido, revisando os papéis e fazendo contas. No ônibus, tira da bolsa o extrato todo enrolado, era um mês inteiro de lucros e débitos.
Desenrolava e voltava a enrolar, antes de chegar ao ponto de descida dobra, amassa e sabe que em duas quadras terá de dar uma resposta que não tem. Sua intuição não a enganara na liquidação da semana passada: não haveria dia melhor para usar aquele salto alto.
Quarta-feira, Maio 12, 2010
O primeiro blog foi criado em 2001. Era época de colégio, vestibular. Continuou em 2002, 2003... Conheci gente legal, nem tanto assim, e gente muito legal. Fiz amigos escrevendo e lendo. Também arranjei namorado assim. Tive um que era verde-limão (o blog). Havia interação, diálogo, muita troca de informações. Havia uma promessa de novo mundo criado através da realidade virtual. E já faz quase dez anos...
Há quinze eu tinha dez e morava em Curitiba. Em 2010, estou aqui de novo. A cidade por onde eu ando, claro, não é a da minha infância. Os bairros por onde passo também são outros, sim. Sempre penso que eu quis tudo isso. A menina que queria ter um emprego bacana, morando na cidade grande e tendo vida de adulta independente. Uh, morar sozinha, uh, ter o próprio dinheiro para gastar com bem entende, mesmo que nunca fique satisfeita depois, depois que o dinheiro vai embora e vira bens. Bens de consumo que logo desparecem, ou perdem a importância. Transformar dinheiro em opções próprias, ter a noção de que pode ir ou não ir para um lugar, um emprego, e tudo tudo mais que existe na vida ser uma escolha própria.
Há vinte anos eu tinha cinco. E muito medo do último andar do meu prédio, onde havia um espaço vazio e escuro. Eu dizia coisas como "quando eu era grande, carregava meus filhos no colo". Na pré-escola, usava glitter e serragem pra pintar uma figura de índio no mês de abril. Assistia Mara-Maravilha deitada na cama da minha mãe e não alcançava o botão de mudar o canal da televisão. E minha expectativa de altura era conseguir enxergar por cima de uma geladeira (que na época era bem mais baixa).
Sábado, Abril 24, 2010
Percepção invertida
Agradecer pela realização de algo que não vai além da obrigação. Esse é o princípio da gratidão burra. É ficar feliz porque uma pessoa deixou de praticar uma maldade com você, então vem a gratidão. Ou porque um órgão público executou finalmente seu serviço dentro da normalidade, ainda que não com eficácia. Em certos momentos perde-se a noção do que é digno de nota e do que não passa de... obrigação. É o que acontece com gente que celebra ao conseguir um atendimento decente na fila do INSS ou ser informado pela caixa da padaria que pagou a mais pelas compras. É como inserir no currículo "honesto" como uma das suas qualidades. É comemorar o óbvio como se ele fosse merecedor de crédito. Não é. É obrigação ser honesto; é obrigação a administração pública realizar atendimento digno; a esposa ser bem tratada pelo marido; a carne congelada ter o peso descrito na embalagem, e assim vai.
A gratidão burra é uma inversão de valor, ou, uma percepção de valor invertido, como queira, do que deveríamos considerar normal no cotidiano. E ainda que deixe de ser rotina, deve ser lembrado e cobrado e gritado aos quatro ventos.
Quarta-feira, Abril 21, 2010
Sim, eu almoço sozinha, e sim, também não sou uma lástima por isso.
Oras.
Pois é, vamos contar a história inteira, ou um pedaço dela, o que a paciência permitir.
Comecei um trabalho novo. Agora me chamam de assessora de imprensa. De Prefeitura. Vou e volto todos os dias em um ônibus pra uma cidadezinha aqui perto que tem o tamanho da minha antiga cidade, Ponta Grossa. Entro às 9 e saio às 18h, pego o ônibus de volta e cá estou. Uso um bloquinho pra anotar tudo o que os secretários dizem, percebo minhas falhas aqui e ali. Percebo que comunicação de órgão público é o trabalho do jornalista até a metade. Sim, porque lá não somos jornalistas, afinal. Somos comunicadores. Oooh. Pela metade porque os dados são entregues mas não são analisados. Analisar dados é coisa de jornalista de redação, jornalista de veículo. Que o furo de reportagem não é, decididamente, coisa de comunicadores nessa situação. O novo não é valorizado. É sempre melhor esperar, aguardar que tudo entre nos eixos e só depois de três ou quatro "ok, Gislaine, vai em frente" que a Gislaine finalmente vai em frente. Mas com um tantinho de receio, sempre. Será que é por aqui? Será que posso? Será que devo? E aquela coceirinha de escrever bem, oferecer informações relevantes, analisar dados e interpretar insiste em aparecer vez ou outra, mas é preciso engolir junto com o remédio pra TPM que se tornou um ótimo aliado - para o mês inteiro.
E é mais um capítulo no livro "Das coisas que eu não sabia fazer e aprendi", por Gislaine Bueno.
Resolvi almoçar na padoca que vira restaurante no horário do almoço. Como sempre, eu não comi tudo. Quando a moça veio tirar o prato, comentou que eu tinha comido pouco (como vocês sabem, somos um povo muito interativo). “É que veio muita comida”, eu disse. “É, você está sozinha, tadinha”, disse a moça.
Tadinha? Como assim. Eu não estava chorando, estava fazendo frio (o que é bom) e fora a minha enorme tristeza com a tragédia do Rio, aquele era um dia normal. Será que eu estava com cara de coitada? Puxa, mas eu usava meu casaco de neve de Berlin, e estava me achando chique. Tadinha.
Tadinha de mim porque estava almoçando sozinha, em uma sexta feira comum, depois de deixar umas roupas na tinturaria. Isso é uma vida de tadinha? Acho que não. Aí lembrei do óbvio. É porque eu sou mulher (dã). E, como se sabe, no Brasil, mulher não pode almoçar sozinha. Muito menos jantar. Ir para a balada então, nem pensar. Temos que andar em dupla. Ou em bando. Sozinhas, nunca! Só se for para ir na manicure ou no supermercado.
A Jô uma vez foi almoçar sozinha em uma cantina. “Você está esperando alguém?” “Não”, ela respondeu. O garçom ficou com tanta pena que a Jô foi tratada com honras. Virou um tipo de atração de circo. A incrível mulher que almoça sozinha em uma cantina.
Somos coitadas porque trabalhamos com liberdade e não temos que almoçar com o grupinho da firma. Somos coitadas porque não carregamos um homem ou uma amiga do lado quando vamos fazer uma coisa prosaica como almoçar correndo num dia de semana.
Somos tadinhas. Ou atrações de circo. Nós, que só queremos ser moças normais.(Nina Lemos)
Quarta-feira, Março 24, 2010
Em Vicky Cristina Barcelona, o filme, a cena:
A personagem explica, em um almoço de família, por que quer estudar a identidade catalã, sua origem e características. Explica como enxerga isso como algo vital para se conhecer mais sobre o mundo e entender a complexidade das relações sociais em determinados espaços. Depois de alguns minutos de explicação, a tia, sem cerimônia, pegando mais um pouco de comida, diz:
- Bobagem, querida. Você vai conhecer um homem bonito, se casar, engravidar e todos os seus dilemas vão se resolver.
**
Ter consciência de que as coisas não merecem tanto desperdício de energia e preocupação não é requisito para deixar de se desesperar dia após dia. Existe uma divisão na minha cabeça: o que é a realidade e o que sinto como realidade. É assim: dirigir em uma estrada, enxergar um carro no lado contrário a um quilômetro e, mesmo sabendo que ele leva tempo para causar algum risco quando se aproximar, virar o volante à toda para a esquerda, antecipando qualquer fato ruim que poderia vir a acontecer. Poderia vir a acontecer. Entende quantas possibilidades multiplicadas existem aí, e nenhuma certeza? É a combinação da combinação, que pode nunca chegar a lugar nenhum, na matemática. Ainda assim, continuo virando o volante antes da hora, me antecipando aos fatos, às palavras, aos anos que ainda não chegaram.
É subir os degraus de três em três e continuar achando pouco, ainda que a escada tenha só dez deles.
Sexta-feira, Março 19, 2010
No fundo do meu cansaço tem uma dose de cinismo, que teima em aparecer quando a paciência resolve ir embora.
Sexta-feira, Março 05, 2010
É verdade, Gislaine, por que não escreve mais?
Domingo, Fevereiro 21, 2010
Ela estava completando um ano naquele emprego quando pediu demissão.
Havia pessoas amigas, havia um salário, rotinas, portas e janelas.
Mas lá fora, ela viu, ainda existe mais.
O mundo.
Segunda-feira, Fevereiro 08, 2010
Quadro clínico:
Ansiedade.
"Seja mais homem, Gislaine".
Esse foi um dos melhores conselhos que recebi até agora.
Quarta-feira, Fevereiro 03, 2010
Vida e vídeo No lugar de viver o momento, fotografa-se o momento. Roubando a essência, deixando o instante passar. Então se publica: “eu no shopping”, “eu no sofá de casa”, “eu vendo Avatar com óculos 3d”, “eu cozinhando milho verde num dia quente enquanto lá fora a lua se esconde”.
“Eu vivendo”, na verdade, sou “eu me vendo”, “eu não-eu”, “eu mostrando eu”, “olha eu aqui”, “olha como sou legal”.
E na verdade aquilo não é real.
Pegue uma pessoa com uma puta de uma vida que parece ser legal. Orkut é ótimo pra isso. Tem as fotos mais fantáaasticas. Você pensa: “pô, que vida legal esse cara tem”. Na prática, o que ele faz é fotografar, nada mais. “Eu vendo domingão do Faustão”.
Pô.
Não há mais vida, há só imagem falsa. E os dias passam, registrados gota a gota, mas a realidade se torna estranha, quase como se não a tivéssemos vivido. Foi um outro, eu só vejo a vida através de fotos. Eu não estava ali. Mas posso te mostrar como minha vida é emocionante. Isto é, se é que eu estive lá. Será?
Pássaros espiões
Pardais são robôs espiões que enviam imagens das nossas casas para algum satélite lá em cima, no espaço. Por isso eles vivem em fios de luz. Olhe para eles, mostre que você sabe quem eles são. Dá dez segundos e eles vão embora.
Sério.
Me dê dez minutos e três rolos de papel crepon.
Pronto, alegria.
Segunda-feira, Fevereiro 01, 2010
A idade do céu
E desbloqueio é quando aquele tal vazio se transforma em amor que veio.
Planos?
Ir ao show do Paulinho Moska.
Preciso de mais algum? Eu sabia que não.
Quarta-feira, Janeiro 27, 2010
Existe algo, sim, nesse tempo, que me rouba de mim mesma. Deixando o egocentrismo tomar conta: eu escrevia antes, caralho! Eu costumava ser divertida, eu tinha metáforas, havia uma rapidez de pensamento. Por falar demais, parei de escrever. Posso agora me propor - voto de silêncio!
Silêeeencio.
Si, lenços????
Sim, Lêncio?
Sil? En cio.
Adrenalina, ou seja lá o que for, surge sem motivo aparente. Sobe pelo corpo e vai se divertir no lado direito do cérebro.
E invento qualquer coisa pra fazer, o mundo está aí.
E o trabalho de economia não sai.
Pensei em jamais voltar a fala das pessoas. Mas o que é o mundo senão elas? Aqui embaixo tem uma pessoa, o Moska, ali do lado tem outra, a Cintia, aí atrás da tela tem outra, você. E o que mais, certo?
Mas sei que quando me prendo à terra, ao terreno, ao físico, acabo perdendo muito do que existe de verdade. Então é preciso parar, respirar, centrar no etéreo. Céu, ar, espaço, sentidos. Que só assim eu sei voar.
Segunda-feira, Janeiro 25, 2010
Falar o que pensa quando a indignação te toma conta.
É, também dá.
Falar o que pensa, quando há bagagem e argumentos.
Por que não?
Claro!
Sexta-feira, Janeiro 22, 2010
...e é aí que eu pergunto: meu filho, então pra que porra serve a comunicação????
Existem espaços nos quais a hora de escrever se encaixa. Mas é preciso sinceridade, espontaneidade. Não dá para mentir muito, não durante um texto inteiro. As verdades me escapam e mostram carinhas sorridentes aqui e ali.
Não dá para mentir por uma página inteira!
Pequena história sobre o conforto que o ego traz, que o Osho conta:
"Ouvi dizer:
Uma criancinha estava visitando seus avós. Ela tinha apenas quatro anos de idade. De noite, quando a avó a estava fazendo dormir, ela de repente começou a chorar e a gritar: "Eu quero ir para casa. Estou com medo do escuro."
Mas a avó disse: "Eu sei muito bem que em sua casa você também dorme no escuro; eu nunca vi a luz acesa: Então por que você está com medo aqui?"
O menino disse: "Sim, é verdade - mas aquela é a minha escuridão. Esta escuridão é completamente desconhecida."
Até mesmo com a escuridão você sente: "Esta é minha.""
Osho - Livro: Além das Fronteiras da Mente
Terça-feira, Janeiro 12, 2010
Alguém devia ter dito:
Gislaine, você está chata.
Porque, raios, como eu estive.
Quinta-feira, Janeiro 07, 2010
Osho, no livro "Osho todos os dias - 365 meditações diárias", editora Verus, 10ª edição, 2003.
"Quando você tem tempo suficiente para gastar, somente então o deleite é possível"
"No ocidente existe muita pressa devido ao conceito cristão de que há somente uma vida e de que com a morte você partirá e não será capaz de voltar. Isso criou uma idéia muito louca na mente das pessoas, e todos estão com pressa, correndo rápido. Ninguém se importa com o lugar para onde está indo; as pessoas pensam apenas em andar mais depressa, e isso é tudo. Assim, ninguém está desfrutando coisa alguma; como se pode desfrutar a uma tal velocidade? A vida toda se tornou uma sequência de eventos rápidos.
Para desfrutar algo, você precisa de uma atitude muito relaxada. Para desfrutar a vida, você precisa da eternidade. Como se pode desfrutar, quando a morte virá em breve? Você tenta desfrutar tanto quanto puder, mas, nesse próprio esforço, toda a paz é perdida, e sem pax não existe o desfrute. O deleite é possível somente quando você saboreia as coisas muito lentamente. Quando você tem tempo suficiente para gastar, somente então o deleite é possível.
O conceito oriental da reencarnação é belom e não importa se ele é ou não verdadeiro. Ele lhe dá uma atitude muito relaxada em relação à vida, e é isso que importa. Não estou reocupado com a metafísica. Ela pode ou não ser verdadeira, e esse absolutamente não é o ponto. Para mim, isso é irrelevante, mas ela lhe dá um belo fundo de cena".
Terça-feira, Janeiro 05, 2010
Trash 80 porque? Oras, como assim???
Segunda-feira, Dezembro 28, 2009
Quando vejo o ano escrito em cabeçalhos, 2009, parece que é um ano que já passou. Dá aquela sensação de ser o passado, um ano antigo, um ano de lembranças, que já foi, já foi. E tenho isso desde o meio do ano. É, 2009, o ano que já acabou pela metade. É o que parece.
Eu poderia falar sobre perdas e conquistas desse ano, do meu míope ponto de vista, mas ah, não vou. Estou mais isso, menos aquilo, o mundo perdeu esse, se espantou com aquilo, chorou com tal coisa e celebrou aquela outra. É, 2009 foi o ano daquele acontecimento, das pessoas a, b e c, das histórias tristes e felizes, dos sustos grandes, das preces, dos abraços. Porque, independente do último número dos quatro que juntamos para definir como uma data, o mundo ainda é dominado por humanos, que choram e fazem coisas erradas. E se emocionam, e esquecem. E os fatos, de qualquer tamanho, só fazem mudar as pecinhas de lugar, no máximo, , mudam as cores, mas a história continua sendo um grande balde de lego.
E o que a gente faz é só tirar daqui e por ali. O que se enxerga com isso, bem, aí é da conta de cada um.
Domingo, Dezembro 27, 2009
A agenda mundial sempre me impressionou. Datas marcadas como especiais em calendários, e as pessoas simplesmente param. Compram, programam viagens, celebram, se abraçam, entram no clima.
Feriados, dias das crianças, dia das mães. Feriados religiosos. E uma multidão age de acordo com o convencionado. Andam em grupos, estouram cartões de crédito, se abraçam, falam sobre planos e refletem sobre a vida. Enfrentam filas. Afinal, é feriado. E o que fazer, senão seguir com todos, conforme sempre foi, como sempre deverá ser?
A mobilização de grandes grupos em torno de algo que foi estabelecido em uma época anterior ao nascimento deles me intriga. As pessoas que decidiram, que estabeleceram, nem aqui não estão mais. Talvez um tio-bisavô, mas tão distante de uma realidade que um dia, disseram, teria de ser assim. A cada dia 19 de março, será o dia da rotina. Então, todos pensam em suas rotinas, e não trabalham, e comem aspargos ao mel. E pronto. E haverá promoções, e haverá comércio, e as agências de viagens terão pacotes especiais, até 50% de desconto para sete dias, com duas crianças de até 12 anos.
E parece que sempre foi assim, a idéia burra de um tradicionalismo que talvez nunca tenha existido.
Quarta-feira, Dezembro 16, 2009
Existe uma atmosfera de fim de ano com a qual nunca me sinto... integrada. Não aproveito os momentos quando eles acontecem, por mais que pense "eu devia".
E assim, sigo.
Das coisas que realizei esse ano, não irei citar nenhuma. Rá.
Desde quando vidas se medem por realizações, afinal? Vidas são amontoados de acontecimentos, montinhos de grama seca, daquelas que quando cortam de uma graande área verde, o cheiro fica por todo o lugar. Eu pego a grama seca, faço montinhos e... pulo em cima. De um para o outro. Até escurecer e chegar a hora do banho.
Penso que a sequência de acontecimentos no mundo não nos dão tempo de digerir as coisas. Mas acabei de falar e morreram 50 na Mongólia. Passou três minutos e inventaram um novo acelerador de partículas. Comi dois pães e a rainha da Inglaterra declara que a guarda real usará chapéus brancos. Espero horas pra fazer xixi porque tenho preguiça e, quando vou, lançaram mais um míssil em algum país distante-tão-perto.
E não tenho a velocidade que queria para estar em toda a parte. Não tenho a energia pra absorver tudo, e há tanta vida por aí... Existem coisas embaixo do meu nariz que não percebo, há pedacinhos de histórias que cruzam o meu caminho diariamente. Gente com quem não converso e teria tanto, tanto a me ensinar.
E isso não é bom ou ruim, apenas... é.
Segunda-feira, Dezembro 14, 2009
...e eu me dei alta da terapia.
...e eu continuo sentindo que existe uma vida lá fora e que, que existe algo que estou perdendo. Como alguém que nunca é convidada pra uma festa. Como alguém que dorme e perde a hora pro compromisso mais importante.
Existe, em algum lugar, um espaço onde eu deveria estar. E pessoas com quem eu deveria estar. E cenários que eu deveria estar olhando, nesse instante. Existe alguma linha que desviou o caminho do trem sem que eu percebesse!!
Acho um absurdo!!! Absurdo!!
Sou totalmente contrária à idéia de "metade da laranja". Não sou metade de ninguém. Sou inteira e tenho todas as partes.
Oras.
Segunda-feira, Dezembro 07, 2009
Existem dois grupos de pessoas:
as que saem sozinha e são felizes com isso
e as que saem acompanhadas e olham torto para o primeiro grupo.
Qualé? É possível ser feliz sozinho sim. Quem escreveu a música, mentiu. Como acontece em muitas canções, filmes e livros.
Tudo bem, não precisa comentar.
Domingo, Dezembro 06, 2009
E chega uma hora em que é preciso refletir. Você para e pensa: e agora?
Em qualquer momento da vida há planos. Expectativas. Um amanhã cheio de projetos. Ainda os tenho. Agora, tenho o tão sonhado tempo meu. É só meu. Coloquei num vidrinho daqueles com areia do nordeste, toda colorida.
Então, eu durmo. Então, eu leio. Então, eu ando pela cidade. E até conto minhas historinhas pra amigos. E, escrevo. Como menos, tenho mais preguiça.
Quando saio portão afora com minhas convicções, tudo se torna geléia. Nuvens bem bonitinhas, em formatos certos, parecendo desenhadas, pluft, se espalham.
E agora são duas da manhã. Mas a internet tem lá seus modos de me fazer companhia. Acompanho o crescimento de filhos de amigos pelo Orkut. Compartilho tristezas, sinto dores que não são minhas, sorrio com as amizades e os sorrisos que vejo.
Mas ainda são duas e vinte.
Ouço o novo cd da Mallu Magalhães. Não é de todo ruim. Começo a ver um filme. Mas comédias estão vazias. Notícias, notícias.
e ainda são duas e vinte e três...
Quinta-feira, Dezembro 03, 2009
...e agora meu pai ouve Susan Boyle quase toda noite. Até comprou o CD.
Gislaine-quase-homem
É, assim as coisas vão:
objetiva, direta, sem paciência, sem frescura.
Mas ainda me falta saco. Literalmente e... não.
Deve haver algo de errado. Ou não. Já não apostaria em nada.
Segunda-feira, Novembro 30, 2009
Eu podia...
escrever a letra de uma música e fingir que não é comigo. Que não sou eu. Que não é nada.
Que não é nada autobiográfico. E as coisas são aleatórias, e nada é premeditado.
Sim, eu podia.
Sempre posso, aliás.
"Moço, hoje eu vou querer
A comida mais estranha
A que menos se pareça comigo"
Droga, fiz de novo.
Eu deixei de ser uma batata!!
Isso precisava ser dito.
Terça-feira, Novembro 24, 2009
My way
Trecho do documentário de Eduardo Coutinho, Edifício Master. E é esse conjunto de sentimentos, retratos, sonhos que me faz amar e odiar as pessoas.
Segunda-feira, Novembro 23, 2009
O fato é que sou extremamente intolerante, que a simpatia e o comportamento aceitável socialmente já caíram fora da ordem do dia.
No blog cabe uma feira inteira, não só meia dúzia de abobrinhas, como no twitter.
Já não me adapto às novas tecnologias.
E isso, bem, não muda nossas vidas, baby.
Quinta-feira, Novembro 19, 2009
Então preste atenção ou me compre uma flor
Aconteceu assim:
Passaram meses, em sequência de dias, e o ar foi mudando de cor. De acordo com o tempo, sol, chuva. Meu ar, minha pequena bolha de 45 centímetros de diâmetro que me circunda fica colorida ou cinza. E é perceptível. "Ih, hoje a bolha está recheada de nuvens. Certeza que vem tempestade". Geralmente é em época de TPM.
Então é assim:
Eu corro pelas ruas da cidade pra pegar o ônibus que corre segundos à frente. E eu adianto o relógio cinco minutos hoje, mas amanhã ele já vai ter voltado ao normal e eu estarei atrasada. E todo dia eu adianto, pra fazer de novo no dia seguinte. O relógio da Band News sempre bate o meu, por dois minutos.
É assim, também:
Estive em São Paulo com vários amigos. Achei o tempo curto, as ruas grandes e o céu bonito, apesar da poluição. Havia uma árvora com placa de 'aluga-se' em frente a um prédio. Pensei em fazer uma oferta. Teve um mar de cabeças que a gente vê de cima nas ruas de compras de São Paulo. Elas andam rápido e sempre sabem pra onde ir, como nas estações de metrô, que parecem cenas de filme-fim-de-mundo, gente, gente e um clima de tensão. Todos têm compromissos, e tudo é inadiável.
Foi de outro jeito, depois:
Rio de Janeiro, a trabalho. ou
"At the Copa, Copacabana"
Três dias de trabalho em frente à praia. Segunda à tarde, gente e mais gente estendida em esteiras. E o sol? E o mar? E a rua que muda de sentido à dez da manhã?
Claro, sempre há a parte de comer algo que faça mal. E aquela de ver gente diferente pelas ruas. Compras de bugiganga, sol. E Jesus Luz estava em Ipanema, logo ao lado, veja só, saiu no jornal. Mas não saiu sobre o seu Sérgio, conhecido como "Sorriso", que ganha a vida cantando com um pandeiro para turistas que pagam o quanto querem pela melodia do negro sem dentes mais simpático de todo o Rio. Também não saiu nada no jornal sobre o senhor que todos os dias passeia com um pastor alemão chamado Eros. E, incrível, nada sobre o sanduíche de frango com queijo minas (?) que se pode comer com tranquilidade em um dos quiosques brancos. Na tv, o tiroteio de 5 horas da Barra da Tijuca.
Pouco vi do lado violento, passei por perto aqui e ali, mas não foi significativo. Pouco tempo pra turismo, mas muito pra para e pensar: uau, Copacabana. E as palmeiras. Enfim.
E foi assim também:
Continuo tendo pânico de avião. Só melhoro quando é de noite e, na turbulência, imagino ser um ônibus na estrada esburacada.
Ah, o conselho do meu pai continua sendo muito válido: só tome água mineral e táxi oficial.
Domingo, Outubro 11, 2009
O que me consola na gripe é que ela vai embora em sete dias.
Terça-feira, Outubro 06, 2009
Está voltando, está voltando...
Eu tenho uma bola de plástico, ela é rosa. Quando jogo pra cima, toda minha racionalidade aparece. A bola fica lá em cima um bom tempo, rodando, rodando. E por aqui, me divirto sendo uma pessoa movida pelo cérebro. Gosto disso, sabe. Objetividade, rapidez, competência. Como não gostar? Sigo cada dia sabendo quais são os passos certos. Estabeleço metas! Cumpro! Ok, nem todas. Mas consigo ver lá na frente, as nuvens somem.
Mas, todo objeto lançado para cima chega a determinado ponto e... começa a cair.
E a bola rosa está caindo... Quando ela volta para minhas mãos, traz consigo a paixão. Em volta de mim, sentadas montando castelinhos de areia, tem três ou quatro menininhas, choronas, mimadas e medrosas. Elas me contagiam, inferno!
Mas, dependendo da força com que eu tenha arremessado a bola, ela pode levar mais ou menos tempo pra cair. Acho.
Procurei. Ou é caro ou é longe. Não acho uma boa, barata, perto, bacana.
Academia, quem diria. Yoga nessa cidade, só em lugares longe da minha casa. E yoga em academia é uma coisa... estranha. Não combina. Então a moça me diz que a modalidade da academia é mais voltada para exercícios físicos. DANEM-SE os exercícios físicos!! E o moço me diz que posso fazer "tudo" por R$ 264, o pacote fitness. Que merda é essa? Pacote fitness, tsc. Só quero yoga, moço, só yoga, não me interessa mais nada. Mesmo que os professores de natação sejam bonitos, mesmo que haja promessa de definção do corpo em um mês, diminuição do número do manequim em duas semanas, qualquer coisa, qualquer outra coisa. Eu só quero yoga.
Tá, a daqui pertinho é R$ 110. E é a mesma coisa. Pacote, yoga de academia, pessoas suadas com suas garrafinhas d´água. Espelhos. Abdômens, televisão.
E tem aquela que me perdi pra achar. Longe, um lugar escuro, cara de improviso. Lá eu poderia fazer pilates, spinning (?), yoga e musculação, por módicos R$ 90. E a yoga? Típica de academia. Aberrações. E não dá, baby, pra voltar Às 21h30, horário da aula, à pé, pelas ruas aqui do Cristo Rei. Não dá, gente, não dá.
Mas há esperança, sempre há. Não quero muito. Só yoga.
Domingo, Outubro 04, 2009
Porque ainda uso Internet Explorer 6.0. E ainda gosto de bolacha recheada com Sessão da Tarde.
Porque talvez não me encaixe em um mundo de dinheiro, poder e belezas de superfície. Porque ainda prefiro sorrisos sinceros, sorvete de flocos, pão com margarina.
Qual é a pergunta dessas respostas? Ela ainda não apareceu, mas nem tudo na vida segue a ordem natural.
Segunda-feira, Setembro 28, 2009
É.
Tiê, Dois.
Das coisas que mulheres fazem melhor que homens...
Bruna Caram, Palavras do Coração.
Domingo, Setembro 27, 2009
...depois de tanto tempo
Ficar sozinha num fim de semana tem lá suas vantagens. As horas continuam a passar, mas agora estão em um relógio que é só seu. Cozinhar para uma pessoa só tem seus encantos, especialmente se você conhece todos os gostos dela. É verdade que ainda não sei medir as quantidades só para mim.
No ônibus, a falta de ar. "certeza que é gripe suína. Vou morrer em dois dias e nunca fui à pracinha do Largo da Ordem. Não fiz nem metade do que queria, falei menos do que devia, vi só 1/10 do mundo, será que dá tempo de ir pra Brasília? Ai.". Era só uma garganta engasgada, mas falam tanto de problemas respiratórios como principal sintoma...
Não era, acho. E não fui ao Largo da Ordem.
Os bairros ali por perto da Vila Hauer, onde morei de 1990 a 1994 têm cheuro de frango assado no domingo. Pessoas andando com sacolas de refrigerante. Moças loiras com a raiz do cabelo preta, de shorts, andam de mãos dadas com seus namorados. Cachorros dormem nas calçadas. Tiozinhos lavam o carro de balde. Aqueles bairros da região têm cheiro de infância. De fim de semana na casa da vó, de macarrão liso com molho vermelho, de Cini framboesa.
Mas, ainda não sei bem o que fazer com as minhas horas. Tenho um livro de páginas brancas nas mãos e não tenho muita idéia de como preenchê-lo. Posso escolher N coisas. É só escolher. Isso me acua. Então fecho o livro e deixo para depois. Sempre.
Tenho projetos, tantos e tão diferentes. Não faço, mas ainda os tenho!
Não consigo assistir filmes sozinha. Tentei várias vezes. Fica chato. Paro no meio, perco a paciência, durmo. Fazer algo sozinha, concentrada no que estou fazendo, é difícil. Sei que reaprendo, é só uma questão de dias, de tempo. E continuo perguntando: "o que você quer, Gislaine?".
Escrever um livro.
É quase fim do ano.
É quase mês 10.
É quase outubro, são quase 25 anos, quase oito meses em Curitiba, sempre quase feliz.
Há quanto tempo eu não pergunto "o que você quer, Gislaine"?
Meses.
Hoje de repente me dei conta de que os compromissos também podem ser comigo mesma. E saí como quem tem hora marcada para algo muito importante. E era só eu comigo mesma. Hora de me levar pra passear. Tudo bem, peguei o ônibus errado. Esqueci o dinheiro em casa. Voltei cansada, mas ainda assim foi comigo. E não vou mais me deixar fugir.
O que você quer, Gislaine?
Tempo para respirar o ar que criei à minha volta, colorir um pouco a cada dia com as cores misturadas que resolvi que existem.
Espaço para ir e vir sem muros. Elasticidade.
Sol, grama e uma amofada para dormir.
Trabalhar com desenhos animados.
Comer pastel frito na hora, na feira.
Esvaziar o coração que nem bexiga, soltar tudo o que sufoca.
Limpar o armário e tirar a poeira do mundo.
Lavar a alma com uma mangueira, sentir a água nos pés.
Não é muito, vai.
=)
Sábado, Setembro 12, 2009
Ponto de interrogação
Com que roupa,
Com que roupa
eu vou?
Foi isso que o
cabide perguntou
Quarta-feira, Setembro 09, 2009
"...Estou me encontrando aqui em Curitiba, já não me sinto tão sozinha, mas ainda é estranho ter tempo de noite e não saber o que fazer com ele. Trouxe o Floco pra ficar comigo até o fim de semana do dia 18. Tadinho, fica sozinho das 9h às 18h. Mas tá bem.
Voltei pra PG esse fim de semana e foi como ver uma cidade fantasma. Me desacostumei. Mas foi difícil separar minha mente e coração de lá, da casa, de tudo. Ainda tô tentando me equilibrar sozinha por aqui, mas é um equilíbrio bem frágil. Tem dias em que tô com a corda toda, animadissima. Noutros, sou um esqueletinho de muletas. Variam os dias.
E hoje te liguei pra te convidar pra vir aqui em casa, mas acho que tinha aula. Quando quer vir? Noite dessas! Sinto falta da gente se encontrar e conversar. Moramos na mesma cidade e quase nunca nos vemos, menina. Isso é ridículo. Aó questiono a qualidade de vida aqui. Tudo deveria ser mais divertido. Tô tentando colorir os dias, um pouquinho de cada vez. Você faz parte da minha caixinha de giz de cera, ou da de lápis, ou da de tinta guache. Viu? Gosto muuuito de você, torço sempre pela sua felicidade, seja aqui, no nordeste ou em qualquer canto do mundo.
Beijo. Me escreve de novo. Eu espero.
=)
Gi."
Quando a gente morre
Depois que a gente morre pouca coisa muda. Tem pessoas que passam dias pensando na gente, ficam triste mesmo, até mudam um pouco suas rotinas que antes estavam tomadas de sujeira na lente. Elas não enxergavam o que havia de mais importante, tão perdidas com o que tem pra fazer de importante, dia-a-dia.
Pra gente que morre, não importa mais a reforma ortográfica. Mesmo que a gente tenha se matado de estudar pro vestibular. As atualidades políticas também, pouco importam. Já não ligamos mais se a Dilma vai perder as eleições porque não tem carisma.
Quando a gente morre ficam por aí os discos, os livros e os históricos de conversa no msn. Ficam por aí as páginas pessoais, os perfis do Orkut.
Tem sempre alguém que queria ter dito, queria ter feito, e no lugar do que ia existir só chega uma notícia. Tem sempre a tia distante, a amiga próxima, o vizinho mau humorado, o primo da sogra do namorado e tem também cafezinho.
Quando a gente morre o sagu não tem mais gosto, mesmo que seja de qualidade, mesmo que seja de vinho e não de suco de uva.
Quarta-feira, Setembro 02, 2009
A realidade é móvel. Um palco com luz colorida, ambientação e roteiros. Mas os objetos, esses se movem. Nunca sei onde é que vai estar a cadeira dali a cinco minutos. A cortina volta e meia troca de textura... Existe ainda cheiros que o vento traz e leva, com tons mais doces ou mais fortes, depende da velocidade dos segundos.
A realidade é uma estante de livros com rodinhas.
De todos os cenários que já montei pra mim, os atuais são os mais inconsistentes. Mas eu criei, posicionei objetos, determinei horários e regrinhas, comprei flores para combinar com a estampa do tapete.
A minha realidade, agora criada realmente por mim, é móvel. São peças de lego que se encaixam nas mais diversas posições e podem formar absolutamente o que eu quiser.
Aprendi a não evitar conflitos, que eles são necessários. Do contrário, a gente se cala e acaba deixando muita coisa pra lá, inclusive a vida. Aceito meus conflitos, os exponho e decido: vamos lá, agora que estão claros é só pensar na solução. Primeiro, saber o que quero. Quero? Ok, quero. Depois, para a prática. Nunca ao contrário. Tudo bem, sempre pulei etapas.
Não sou uma pessoa de coragem, ao menos não me via assim. Prefiro evitar problemas, discórdias. Sempre da turma do "deixa disso", apaziguando o mundo. Nunca tive problema em abrir mão do que eu quero para satisfazer um grupo de pessoas, ou uma até. Tá, tenho lá minhas birrinhas, mas não sou egoísta. aliás, acho o individualismo um dos maiores pecados nesse mundo tão grande. Tá, tá, também tenho meus dias de rainha do universo.
Mas, sabe, agora ao menos consigo dizer: não, não quero mais isso. Não, não tolero mais, não tenho por que. É um exercício demorado, mas tem ótimos resultados, ao menos pra auto estima.
Nos últimos meses houve uma gigante mudança entre querer ser adulta e me comportar como uma. É verdade que desde os seis anos já parecia uma mini-adulta. Responsável, preocupada, etc. Um saco de criança, cá pra nós. Ninguém me chacoalhava com um "ei, vai curtir a infância", então eu achava muito natural me preocupar com a ordem, a moral e os bons costumes do mundo, com a ecologia, a economia de água, o preço das verduras e o orçamento do material escolar.
Mas assim fujo do assunto. E, quem quer assunto? Quem quer ler tanta coisa? Levo meses pra voltar a escrever aqui, e talvez leve mais alguns pra voltar. Tenho meus sustos que dizem: psiu, a vida passa mesmo muito rápido. De que importa tanta preocupação com compromissos criados pela gente, na nossa cabeça, no nosso mundinho? A Terra não explode quando eu digo um não e decido desviar o caminho do trabalho pra comer pastel na feira. As pessoas não morrem se eu me fizer ausente. A bolsa de valores não vai ter um novo crash se de repente eu resolver pegar o ônibus errado e parar no cinema.
Já não me cobro mais tanto, não entro na onda do "tenho que fazer isso". Ok, existem momentos de tensão que me dominam. Mas são menores agora.
Conhece a Tiê? É uma cantora da voz suave com composições bonitas e que vem cantar aqui na Bienal do Livro, na sexta-feira. Aliás, o Rubem Alves também vem, amanhã. Velhinho, inteligente e o máximo da sensibilidade em uma pessoa. Me casaria com ele, já disse.
Então, a Tiê fez essa música, ó, que de tão bonita me deixou tentada a faltar aula pra ver. "Tenho que ir pra aula, tenho que ir, não posso faltar", é assim que começa um pensamento bola de neve que se transforma em tensões pelo corpo inteiro. E, cá entre nós, eu não "tenho que" porra nenhuma, que essa vida fui que criei, e, como disse, é móvel, como uma casinha desenhada com palitinhos de fósforo. Mexo um e crio uma nova figura.
Ah, a música, não é?
Assinado Eu (Tiê)
Já faz um tempo
Que eu queria te escrever um som
Passado o passado,
Acho que eu mesma esqueci o tom
Mas sinto que
Eu te devo sempre alguma explicação.
Parece inaceitável a minha decisão.
Eu sei.
Da primeira vez,
Quem sugeriu,
Eu sei, eu sei, fui eu.
Da segunda
Quem fingiu que não estava ali,
Também fui eu.
Mas em toda a história,
É nossa obrigação saber seguir em frente,
Seja lá qual direção.
Eu sei.
Tanta afinidade assim, eu sei que só pode ser bom.
Mas se é contrário,
É ruim, pesado
E eu não acho bom.
Eu fico esperando o dia que você
Me aceite como amiga,
Ainda vou te convencer.
Eu sei.
E te peço,
Me perdoa,
Me desculpa que eu não fui sua namorada,
Pois fiquei atordoada,
Faltou o ar,
Faltou o ar.
Me despeço dessa história
E concluo: a gente segue a direção
Que o nosso próprio coração mandar,
E foi pra lá, e foi pra lá.
E te peço,
Me perdoa,
Me desculpa que eu não fui sua namorada,
Pois fiquei atordoada de amor
Faltou o ar,
Faltou o ar.
Me despeço dessa história
E concluo: a gente segue a direção
Que o nosso próprio coração mandar,
E foi pra lá, e foi pra lá, e foi pra lá.
Sexta-feira, Agosto 28, 2009
Eu ia, mas desisti.
e dos impulsos não realizados faz-se a minha vida.
Quarta-feira, Julho 08, 2009
ê, ê, ê, cadê a 4ªD?
Eu concordo, esse blog tá uma merda. E ele já foi melhor. E eu tinha mais tempo, vontade, menos idade, peso e compromissos.
Sempre pensei que alegar falta de tempo era dar atestado de burrice. O tempo é seu, não é de mais ninguém.
- Mas eu não consigo evitar, Fabi!
- Gislaine, estamos falando da sua vida, não de um trem desgovernado.
A Fabiane me faz falta. Ela está por aí, em Ponta Grossa, fazendo faculdade, subindo oito andares e descendo oito andares por dia, no elevador que hoje é seguro, mas já foi um compartimento de madeira que estalava. Pra falar com ela bastaria um telefonema. Que nunca dou mas sempre penso em fazer. E não faço.
Sinto falta da Ísis, do tempo do cursinho. Do Guilherme, da mesma época.
Lembro das Frans. Eram gêmeas. Continuam sendo gêmeas, obviamente. Moravam em um conjuntinho de prédios. Com treze anos, o que mais queriam era ir pra Disney. Eu realmente gostava delas. Ainda gosto, mesmo que na minha mente a imagem seja de duas meninas magrinhas jogando vôlei no meu aniversário de doze anos, de roupas verdes e brincos do Mickey.
Penso também no Edinho. Era meu melhor amigo aos quatro anos de idade. A gente brincava no parquinho. Minhas irmãs diziam que a gente namorava, mas na época eu tomava Gadernal e mal me equilibrava no balanço. "Ó lá, tua irmã tá caindo do balanço de novo".
Lembro da Carol. Quando eu tinha cinco anos ela devia ter oito. Bonecas de papel e suas roupinhas eram a maior diversão do mundo. Depois que me mudei de Londrina, ainda a visitei durante alguns anos. Ia lá no conjunto de prédios, tocava o interfone.
- A Carol tá aí?
- Não, tá na casa da Larissa, no bloco 6.
- Ah, tá.
Bloco 6, interfone:
- A Carol tá aí?
- Tá. Caroooool.
- Oi!
- Carol, vamo brincá?
- Ih, agora tô assistindo desenho.
- Tá bom, eu espero!
- Ih, depois vou assistir Chaves.
- Ah, tá.
- Tá, tchau.
- Ué, filha, não ia brincar com a Carol?
- Não, ela foi assistir Chaves.
Lembro da Ângela dos Passos. Ela morava atrás de um convento, em um bairro distante. Cantamos parabéns pra ela no recreio, nas mesinhas de xadrez, com três latinhas de refrigerante e uns docinhos. Um dia vi a mãe dela, depois de muitos anos. Mas não perguntei: "como vai a Ângela?". E, por não perguntar, nunca mais soube dela.
O Felipe na sala disse:
- O Alisson quer saber porque você só usa meia da Maxitango.
- Ah, é que eu ganhei um monte delas quando comprei o tênis.
Eram meias brancas até o joelho com váaarias logomarcas da loja de calçados da cidade. Nessa época criei ressentimento de brindes.
As pessoas entraram no meu catálogo mágico com seus trejeitos, falas e olhos tristes. A Rosângela da quarta série tinha uma irmã da mesma idade que escondia cigarros na bolsa. A Elisângela, três vezes maior que eu. Que ganhou de mim na Queimada e me fez ser piada o ano inteiro.
- ê ê ê, cadê a 4ª D?
Pô, eu tinha um metro, comé que me colocam na base?
Mas eu não quis trocar de lugar com a Letícia, que tinha franjinhas castanhas. Cancha cheia, bola pesada, e a Elisângela virando um muro cada vez maior na minha frente. O muro crescia e a bola não chegava do outro lado. Tudo bem, ela fumava aos dez anos e era repetente, a vida dela não era boa.
Tudo isso de uma vez e chega.
Domingo, Julho 05, 2009
Sebastiana, a vó.
Foram dois adeus em uma semana.
Teve lágrimas, abraços, espaços, lamentos.
Também houve pessoas, parentes, dias e noites sufocados por expectativas.
E discussões, e medos, e apostas, e fé.
E conformismo, viagens, madrugadas.
Teve café às duas da manhã, mesa posta o dia todo.
Ela era a vó. Nós éramos filhos, netos, sobrinhos, agregados, irmãos.
Ela era a Tiana. Nós éramos Gislaine, Judith, João, Letícia, Camila, Davi.
Ela era o centro de uma família. E sem ela, um pouco menos de nós mesmos somos então.
Quinta-feira, Junho 18, 2009
O corte
Existe uma dor aguda da qual sempre me lembro: o corte de um canivete no dedo indicador, que por jeito desajeitado fiz bater a lâmina no osso do dedo, lá no fundo.
E sangrou.
E espirrou pelas paredes da casa de uma tia.
No quarto de uma prima.
Perto e em volta de um interruptor da Minnie.
Uma visita que estava na casa da tia:
- Coloca embaixo dágua.
Coloquei.
E sangrou.
Sangrou.
Alguém teve a piedade de avisar
- Tira debaixo dágua senão vai escorrer o sangue todo.
Enrola em um pouco de papel higiênico. E aperta.
Apertei, apertei. E parou. De tudo, restaram só as marcas na parede, que tratei de limpar com algum pano. Parecia cenário de livro ruim sobre assassinato.
Desde então nunca mais brinquei com canivetes de mil e uma utilidades.
A dor ainda consigo sentir, é funda. Ao menos não sangra mais.
Segunda-feira, Junho 15, 2009
Quando descobri que quem escreve as notinhas sobre si mesmo nos livros, na contra-capa, é o próprio escritor, me tornei um pouco mais triste.
Tinha aquela alegria boba de pensar serem verdades as frases porque, afinal, haviam sido escritas por uma terceira pessoa. Quando quem fala é o outro parece existir mais veracidade, mais certeza. Se eu falo sobre mim mesma, qual é o grau de credibilidade da coisa?
Mas eu tinha certeza que era sempre outra pessoa, assim como é outra pessoa quem escreve a orelha do livro, o prefácio, etc..
Então, só escrevo um livro se uma terceira pessoa redigir o 'quem sou eu' para a contra-capa. Assim me livro da vergonha de olhar no espelho e a imagem me acusar de prepotente e mentirosa. "Gislaine Bueno é formada em tal coisa, publicou tal livro e é conhecida por tal feito". Qual é o índice pelo qual você mede a veracidade do que acredita sobre si mesmo? Aquilo que os outros falam? Penso que o critério de auto-avaliação deveria ser aquilo que os outros NÃO falam.
Quarta-feira, Junho 10, 2009
Eu acho que você devia escutar mais Marina Lima.
Verdade...
Terça-feira, Junho 02, 2009
Eu podia, você sabe, ficar aqui falando e falando. Tem vezes que paro pra ler o que já foi escrito e dou risada. Ó só:
"A vulgaridade masca chiclete de boca aberta. E atrapalha o caminho dos transeuntes. À toa, sem motivo para estar lá. A vulgaridade expõe o mistério com obviedade, sem elegância nem graça. E grita, desmedida e inoportuna. À toa."
"E toda essa coisa de ambiente acadêmico acaba fazendo mal. Não permita que eu seja daquelas chatas que lançam livros a partir de teses de doutorado a respeito de... de... de coisas totalmente dispensáveis ao mundo moderno, como "o ritmo da minhoca-ruiva sob o pôr-do-sol primaveril e sua intrínseca relação com o método cartesiano". Ou viverei nesse mundo paralelo onde as coisas importantes viram abstrações presas em livros nunca lidos."
"Eu iria morar dentro de um globo de vidro, em uma casa posta de ponta-cabeça de tempos em tempos por curiosos entretidos com a chuva colorida de purpurina no meio daquele líquido viscoso e transparente, que seria o meu ar. Ao lado da casa, uma árvore. E um cavalinho, que sofreria de enjôo e tédio."
"Ela desejou chuva. Era a hora errada. Poças d´água de meio-fio, só dali a dois meses. Contentou-se com o estalar dos móveis na madrugada, pois agora já sabia - não eram monstros escondidos, só a "dilatação pelo calor". Menos intrigante, quase sem graça. Para manter o encanto, ficou guardando aquela certezinha de que a Física também pode errar de vez em quando."
Pára, que nostalgia também tem limite.
Por que é preciso correr, se todo o segundo chega sempre atrasado em relação ao anterior?
Segunda-feira, Maio 25, 2009
Eu vivo em um espaço em que, de repente, 'nossa, já é meia-noite'. Vivo entre mundos, sobre linhas e fios de arame, com um bom equilíbrio, sim, sim. Há um espaço no meio do tempo, quando as cores se espalham e se tornam mais clara para então virarem outras cores, nesse espaço eu estou. Puxo aqui e ali, como se fechando zíperes que saem de fora das páginas, mas se cruzam de forma que nem sempre têm ligação com algum trilho. Mas eu puxo.
Vivo num espaço em que o pôr-do-sol leva para cima todas as cores e elas ficam passando como em uma tela, se alternando, e é para isso que eu olho quando estou triste. Os minutos que passo indo de um local ao outro, gasto olhando para o céu e os prédios, as pessoas que estão também no espaço que é só delas. É comum me bater uma indignação: o céu é tão grande e a gente aqui, preso na terra, dando passos presos à gravidade de um planetinha? O céu é tão grande e caberia não só o mundo inteiro, como outros e outros. E daí que acho que céu não é lugar para aviões, eles não sabem aproveitar isso que chamam de liberdade, mesmo porque não a têm.
Esse é um espaço de vazios que eu tento preencher com copos coloridos, música no começo do dia, ligações de R$ 2 o minuto e outras pequenas coisas. Me pego pensando no que não gosto, nesse espaço, mas lembro que é tudo sempre temporário. Ao mesmo tempo, viver de espaços-tempos temporários dá a impressão de que nada será definitivo. Nunca vou estar no agora, nunca vou dizer: é isso, então é só aproveitar o aqui. É tudo temporário, não curto a música e o ar quente das três da tarde. É tudo temporário - quando será a hora de dizer: pronto?
É como ensinam na escola: nenhum traço é reta, é só um segmento dela.
Quinta-feira, Maio 21, 2009
Se o risolis é só a variação da forma da coxinha, se colocarmos frango nele, qual a utilidade da coxinha? É assim que as coisas se tornam obsoletas?
Segunda-feira, Maio 18, 2009
Trecho de "A soma dos dias", de Isabel Allende, a chilena. Um pouco de tudo que vale a pena.
"Este longo amor com Willie foi uma dádiva nos anos maduros de minha existência. Quando me divorciei de teu pai, Paula, me preparei para continuar andando sozinha, porque achei quase impossível encontrar outro companheiro. Sou mandona, independente, tribal, e tenho um trabalho pouco comum, que me exige passar metade do meu tempo sozinha, calada e escondida. Poucos homens aguentam isso. Não quero pecar por falsa modéstia, também tenho algumas virtudes. Você se lembra de algum, filha? Deixe-me ver, deixe-me pensar... Por exemplo: necessito de pouca manutenção, sou saudável e carinhosa. Você dizia que sou divertida, que ninguém se chateia comigo, mas isso era antes. Depois que você se foi acabou a minha vontade de ser a alma da festa. Me tornei introvertida; você não me reconheceria. o milagre foi achar - onde e quando menos esperava - o único homem que poderia me suportar. Sincronia. Sorte. Destino, diria minha avó. Willie garante que nos amamos em vidas anteriores e que continuaremos assim e, vodas futuras, mas você sabe como me assustam o carma e a reencarnação. Prefiro limitar essa experiência amorosa a uma só vida, o que já é o bastante.
Willie ainda me parece tão estrangeiro! De manhã, quando está se barbeando e o vejo no espelho, costumo me perguntar quem, diabos, é esse homem branco demais, grande e norte-americano, e por que estamos no mesmo banheiro. Quando nos conhecemos, tínhamos muito pouco em comum, vínhamos de meios muito diferentes e tivemos que ir inventando um idioma - espanglish - para nos entender. Passado, cultura e costumes nos separavam, assim como os problemas inevitáveis dos filhos numa família adotada artificialmente, mas à força conseguimos abrir o espaço indispensável para o amor. É verdade que para me instalar nos Estados Unidos com ele deixei quase tudo que tinha e me acomodei como pude à desordem da batalha da sua vida, mas ele também fez muitas concessões e mudanças para que ficássemos juntos.
Desde o começo adotou minha família e respeitou meu trabalho, me acompanhou no que pôde, me apoiou e me protegeu até de mim mesma, não me critica, se diverte suavemente com minhas manias, não deixa que passe por cima dele, não concorre comigo, e até nas brigas que tivemos ele me tratou com nobreza. Willie defende seu território sem alarde; diz que traçou um pequeno círculo de giz dentro do qual está a salvo de mim e da tribo: cuidado para não violá-lo. Uma imensa doçura se esconde sob sua aparência rude; é sentimental como um cachorro grande. Sem ele, eu não poderia escrever tanto e tão calmamente como faço, porque se ocupa de tudo que me assusta, desde meus constratos e nossa vida social , até o funcionamento das misteriosas máquinas domésticas. Apesar de ainda me surpreender de vê-lo ao meu lado, me acostumei à sua enorme presença e já não poderia viver sem ele. Willie preenche a casa, preenche a minha vida."
Domingo, Maio 17, 2009
Das coisas que irritam no mundo, consumismo está em primeiríissimo lugar.
Domingo, Maio 10, 2009
Você sabe o que existe lá em casa? Eu posso te contar um pouquinho, que é coisa que mal não vai fazer.
Existem quatro pessoas que moravam em seis cômodos, com seis cachorros e um gato, dentro da harmonia possível. É verdade que harmonia, nesse contexto, é uma palavra que toma sentidos variados, e pode ser aplicado a um ou dois quesitos ao mesmo tempo, no máximo, e nunca no todo. Pense em uma parábola, onde o objeto é lançado de baixo pra cima. A subida é lenta e gradativa. Até que chega ao ponto máximo. As quatro pessoas da casa chegaram ao seu ponto máximo. A situação de hoje é que três pessoas são reféns de uma. Que hoje deveria ter passado um dia especial, como em toda família que se preze. Mas o círculo - que é vicioso - de brigas, ameaças, descontroles e vitimização não deu trégua, e não dá trégua faz uns bons meses. O que acontece? Ninguém entende como uma pessoa consegue chegar em tal nível de histeria e chantagem emocional - que são as cores que dão o tom de qualquer relacionamento dela. Ninguém sabe o que fazer, ao menos agora se passou ao estágio de pensar o que fazer, já que antes não se fazia absolutamente nada.
No sábado eu me perguntava como três pessoas adultas simplesmente se tornam reféns de uma, de uma forma que envolve emoções tão duras como estas. Sentada no sofá ouvindo mais uma vez todas as lamentações sobre uma vida supostamente 'difícil', eu realmente não encontrava respostas. Não é plausível que três pessoas fiquem em silêncio apenas porque a quarta ganha tudo no grito. Não é plausível que todos estejam errado, todos os 70 personagens que já passaram pela vida da quarta pessoa.
Quando eu era pequena, a via chorando quase toda semana. A única hipótese que me ocorria era que o mundo era mau com uma pessoa tão boa. E que havia motivo, claro, para tanta tristeza e frustração numa pessoa só. Mas o tempo passou e o cenário só foi ficando mais sombrio, com intervalos de sol aqui e ali.
O que você diria para alguém que te faz o dia ser um inferno, e, no final te pede desculpas dizendo que te ama? O que você diria para alguém que te defendeu a vida inteira, que lutou para que tudo fosse mais fácil, e agora te cobra isso com frases como 'fiz tudo por vocês e agora estou sozinha?'.
Se eu pudesse dar um conselho para quem, de alguma forma, possa vir a passar por isso? É difícil enxergar um quadro tão perturbador como esse de forma clara. É preciso anos para começar a entender uma fagulha de um grande, enorme, assustadora fogueira.
Mas eu falaria que:
- Não deixe, nunca, que as pessoas à sua volta caiam na teia da vitimização. E que te levem junto, porque isso é contagioso. Não caia em historinhas do tipo 'ninguém me ama, ninguém me quer', que em geral é mais um truque (ainda que inconsciente) para te aprisionar.
- Não espere que as pessoas percebam os próprios erros. Ainda que haja um pedido de desculpas, veirifique se existem sinais de que há mesmo culpa, sinais de arrependimento de fato.
- Tire de si toda e qualquer ídéia de que alguma responsabilidade por toda essa loucura é sua. Ou que você pode criar uma saída, por conta própria.
- Mantenha-se a uma distância saudável.
- Abstenha-se de qualquer emoção para analisar da maneira mais correta. Sentimentos cegam nas horas mais impróprias.
- Analise o quanto de você é hereditário e o quanto depende de escolhas.
- E claro, não perca as esperanças. Foram vinte e quatro anos com a visão errada sobre um fato. Mesmo que ainda me restem somente mais 24 anos - nunca se sabe - , ainda é tempo de ver o cenário como um filme, e não mais como uma foto. Uma sequência que dê sentido a coisas repetidamente sem sentido.
Pronto. Agora você sabe metade da minha vida, se é que ainda não sabia. Não que isso mude alguma coisa, é só uma questão de subir a montanha e olhar láaa do topo. É bem diferente de ter o chão a um metro e meio da sua cabeça.
Fecham-se as cortinas. Entediado, o público vai embora e sou eu quem tem de apagar as luzes.
Lá (no blogspot) ficou muito chato. A outra opção é: eu fiquei muito chata. Mas essa descartemos.
Minha coleção de idéias está escapando pelo 14° andar de um prédio. Não que elas sejam suicidas, mas o ar lá fora sempre parece mais atrativo.
Mudaram as placas de dentro dos ônibus. Antes, perto da entrada tinha o escrito "Não fale com o motorista". Perceba que agora a frase é "Fale com o motorista somente o essencial". Talvez tenham percebido que algumas pessoas precisam, sim, falar com o motorista. Quando vejo a frase de agora morro de vontade de cutucar o motorista e falar: "Jesus te ama". Ué, nunca se sabe qual o conceito de essencial de cada pessoa.
Para o seu Milton, morador da frente da casa, o essencial é podar as árvores e deixar os galhos na rua, ao lado da calçada. E ligar todos os dias para a Prefeitura, exigindo que passe algum caminhão para levar. Eles nunca passam, mas ele não deixa de telefonar. E continua a cortar os galhos.
Para a dona Maria que faz bolos, o essencial é não deixar a massa de pão-de-ló passar do ponto. E nem gatos destruírem o jardim com flores amor-perfeito, cometendo, se necessário, assassínio de gatos por veneno.
Para o Tio dos Pêssegos que a cada semana vem nos pedir um real, o importante é que entendam que ele realmente precisa desse um real, e que não irá gastar com álcool no próximo bar. Depois de meses vindo todo descabelado s maltrapilho, na última sexta-feira apareceu penteado, de barba feita e roupa social. Ainda assim, era essencial que mais uma vez ajudássemos com uma moeda. De um real.
O conceito de essencial, portanto, é variável. Há os que acham essencial trocar de carro todo ano. Ou comprar roupas de marca. Muitos são os que têm como prioridade abrir mão da margarina para comprar mais pães.
E assim é, com mais ou menos cores.
Quinta-feira, Fevereiro 19, 2009
"A maioria das pessoas perde a vida toda, sabe? Olhe, a vida não se trata de você estar no topo de uma montanha vendo o pôr-do-sol. A vida não é ficar de pé diante do altar, nem o momento em que seu bebê nasce, ou aquele dia em que você está em águas profundas e um golfinho nada a seu lado. Esses são fragmentos. 10 ou 12 grãos de areia espalhados em toda sua existência. Não são a vida. A vida é você escovar os dentes, fazer um sanduíche ou ver o noticiário, ou esperar o ônibus. Ou andar. Todos os dias acontecem milhares de diminutos eventos, e, se você não os observar, se não tomar cuidado, se não os capturar e fizer deles algo importante, pode perdê-los. Pode perder toda a sua vida."
Depois de escrever é nítido que soa auto-ajuda por demais. É trecho final do livro 'Tudo se conta', de Toni Jordan. Acho que o final e a aparência dele não demonstram com dignidade que é sim uma ótima história.
*
Aqui, no ônibus, a cada ponto uma voz informa qual é o nome da estação. E quais conexão você poderá fazer descendo na próxima parada. E pede para evitar as proximidades da porta 3, para facilitar o embarque e desembarque. Deveriam dizer que tem de ficar longe da porta porque, há alguns dias, ela abriu com o ônibus em movimento e uma mulher morreu atropelada. Os avisos nunca dizem o essencial.
Tsc.
Por aqui, é verdade, as pessoas ligam menos uma para as outras. Também não param para cumprimentar cachorros, elas têm pressa. E sempre sabem para onde vão. Tenho pequenas metas ao andar, chegar aqui e ali, estender um pouco o caminho mais umas quadras, mas guardar bem na memória as placas. Se tivesse migalhas as jogaria pelo caminho, tantas as placas e sons e bancos e praças e sinais de trânsito.
Na reunião da clínica onde está (mais uma vez) minha mãe, a psicóloga dizia algo como "um circulo vicioso de culpa e punição", "é preciso ter paciência e perseverança", e outras frases. Ela não chegou com roupa branca, como a psiquiatra. Claro, psicólogos não são médicos e eu demorei a entender a lógica dessa frase. Chegou foi com uma camisa super colorida, rosa, azul e mais tons. Sandálias de tiras horizontais pretas sobre o dorso do pé. Sete tiras. Uma tiara grossa que parecia uma faixa de cabelo e deixava uns fios dando a impressão de chifres. Não me lembro a cor da saia. Tinha bochechas cheinhas, lembrando uma tia. Eu estava mais interessada em terminar o livro do que ouvir a histórias dos parentes de internos, mas a gente se obriga a ser, no mínimo, receptiva. O que é diferente de gentil.
Uma das mulheres na sala sugeriu a alguém que tivesse mais atitude que ela: "era bom ligar esse ventilador, tá tão abafado, né?". Lá foi um dos rapazes subir na cadeira e mexer no ventilador que estava grudado na parede. Era vermelho, do tipo bem antigo. O aparelho. O rapaz era novo. Ligado, o vento batendo de canto a canto do espaço de quatro metros quadrados ou pouco mais, a moça do pedido agora pergunta, como se fosse coisa normal de dizer: "alguém aí tem problema com vento?". Claro, eu tenho. Tive um trauma aos seis anos de idade, quando meu gato teve a cabeça cortada por um ventilador de teto, ao pular de cima do armário.
***
Não, eu não falo da vida profissional porque tenho medo que seja um tremendo fracasso. Total e pleno fracasso.
*
Os primeiros selos colados nos primeiros envelopes que enviei aqui pelos correios precisavam de cola. Perguntei ao rapaz do lado se não seriam autocolantes, ele disse que não, mas na Inglaterra são. Perguntei porque uma cidade tão grande, capital chamada de primeiro mundo não teria selos autocolantes, ele apenas assentiu com um 'pois é'. Ontem, ao pedir os mesmos selos para cartas de até 30 gramas, a funcionária teve a decência de me dar um autocolante. Estamos mais próximos da Inglaterra. Não que eu queira.
*
Os minutos são mini-martelos pressionando minha cabeça, de lado a lado, em sentido anti-horário e sem pausa para o almoço.
Quarta-feira, Fevereiro 11, 2009
Do nada
As pessoas sacolejam por aí carregando suas certezas. E têm alívios temporários, e se atrasam e se arrependem e esperam tudo outra vez. Cansei desse espaço, desse jeito meu de falar sozinha e não ter paciência de ficar conferindo se há alguém ouvindo. De necessitar de feedbacks espontâneos, de aguardar o que acaba precisando de um empurrãozinho para acontecer. A Soninha (Francine) tem razão em uma coisa (talvez em outras também), que é perguntar sempre 'por que' ao fazer qualquer coisa, ao pensar no que já é feito há tanto tempo e não se questiona mais. O Rubem Alves também tem tanta razão ao dizer que é necessário reitrar todas as cores da parede para só então descobrir qual era sua fora original. Raspar, raspar e retirar camada por camada. E repintar de um jeito novo agora, de forma consciente e voluntária.
Este espaço está obsoleto.
Domingo, Janeiro 25, 2009
Nesse link está uma notícia que me chamou atenção. O título é: Em 5 anos, 1.150 brasileiros somem no exterior.
O Ministério das Relações Exteriores (MRE) registrou 1.150 casos de brasileiros desaparecidos no exterior nos últimos cinco anos. Mas o próprio órgão reconhece que esse não é o número exato, uma vez que muitos parentes não relatam os sumiços e outros não avisam quando as pessoas são encontradas. Há também pessoas que não estão desaparecidas - simplesmente não querem contato com os familiares.
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Então pensa: nada de grave aconteceu com elas, não foram raptadas, não tiveram seus órgãos roubados, não foram mortos pela máfia, tampouco minguaram sem emprego nas ruas frias de algum país estrangeiro. Elas apenas não querem mais falar com a família que está aqui no Brasil. São pais, filhos, irmãos com as quais os viajantes - quem sabe fugidos justamente desses parentes - não querem mais contato. Simples assim. Elas não são de meias medidas. Não suporto mais olhar pra cara daquele parente que só enche o saco? Vou cruzar o Atlântico. E pronto. Não basta ir para outro estado brasileiro, nem outra cidade, nem tirar o número da lista telefônica. É preciso pegar três voos com conexões diferentes, não legalizar a situação no país e não deixar pistas sobre o verdadeiro nome e endereço. Ufa, isso dá trabalho. E quem poderá julgá-los? Exceto, claro, se lá do outro lado do oceano resolverem, agora, formar uma nova família, com filhos, cunhados, sogros, sobrinhos... Mas o mundo é grande, e se a paciência passar da validade, há outras centenas de lugares longínquos onde nenhuma embaixada alcança. É um jeito de levar a vida, e não é?
Sábado, Janeiro 24, 2009
Tudo já foi dito, tudo já foi escrito. Não há nada de novo, o mundo é só o renascimento do mundo.
Quarta-feira, Janeiro 21, 2009
Musiquin
Quando alguém me desaponta
Paro tudo e dou um tempo
Dali a pouco eu me dou conta
Que ninguém é cem por cento
Seja um príncipe ou um sapo
Seja um bicho ou uma pessoa
Até mesmo um pé-de-nabo
Tem alguma coisa boa
'Pé de nabo', do Palavra Cantada
Segunda-feira, Janeiro 19, 2009
Mosaico
Você sabe qual é a merda da vida? É o desejo. Se todos fôssemos budistas, 90% dos problemas estavam resolvidos. Não haveria frustração nem agonia porque o desejo também não iria existir. Se existisse, não ocuparia tanto espaço na mente e no coração. Querer um lápis com ponta que não quebre já é o ponto inicial pra um grande despespero. E por mais que seja totalmente consciente, fora do rumo passional que a maioria das coisas tomam, ainda aborrece. O aborrecimento tem o peso de uma bigorna de desenho animado, cai no pé, jogada por quem quer te sabotar ou fazer o público rir. Mesmo sendo pesado, pode caber em uma caixinha, manter-se no criado-mudo pra dar boa noite e bom dia. E é só.
Sábado, Janeiro 17, 2009
Impressão
Ele consegue comer bolotas de arroz, eu não. Sempre preciso dividir com o garfo, e quando a comida está fria, exige mais força na mão. Alguns grãos caem fora do prato. E não me dou bem com o fundo queimado de arroz na panela. Mas o que cheira mal mesmo, quando passa do ponto no fogo, é feijão.
Já viu nhoque com molho vermelho misturado a strogonof de carne? A aparência não é boa, não é mesmo. Lembra vômito com pedaços grandes de alguma coisa de dentro da gente. Lembra lavagem, outras coisas ainda piores. Secreções, excreções humanas. Mas só se você olhar bem.
Cubo mágico
O conflito entre a forma e o conteúdo por vezes me toma espaço na cabeça. Dali a cinco minutos estou a arrumar o quarto, remexendo nas gavetas. Tenho tremenda dificuldade de jogar coisas fora. Alguns psicanalistas explicam com um conceito nada bom de se ouvir: problema na fase anal. Nem vem, não é tão raso quanto parece.
E aí se acumulam meus preciosos lixos. Não consegui ainda me livrar doslivros de interpretação de textos da sexta e da sétima série. Nem de diários escritos desde os onze anos de idade; agendas de colégio, faculdade, serviço. Bloquinhos de anotações da época do jornal!
Presentes: blusas que não me servem mais, porta-retratos quebrados, bonecos de resina, capas de cds, fitas cassetes, bilhetes escritos por 37 pessoas diferentes (um dia escreveu algo e me entregou? aposte que ainda está guardado).
Contas pagas.
Incensos que não serão mais usados.
Pilhas (!), que periodicamente (uma vez a cada dois anos?) são jogadas fora em ataques de decisão repentina.
e mais. Eu me esforço, mando ordens expressas para o cérebro. Ele é quem recua. Da última vez que coloquei uma agenda no saco de lixo de 100 litros que sempre me acompanha nas arrumações do quarto, ela ficou no fundo do plástico por não mais que cinco minutos. Pensei em me testar. Colocar tudo, tudinho que citei (e mais) no pacote, fechar, e levar para a frente de casa. Em seguida, desisto.
Nas listinhasde desejos encafifados na cabeça, tenho um apartamento (casa, sabe Deus), totalmente minimalista. Poucos móveis, quarto branco, armários disfarçados nas paredes para não serem percebidos. Uma sala com muito espaço e janelas grandes. Quadros aqui e ali, com pouca estampa. Pé-direito alto, três, cinco metros. Espaaaaço.
Você sabe, tudo isso é bobagem. Do externo para o interno acaba sendo um grande passo, nem sempre alcanço com dois pequenos pés.
Sexta-feira, Janeiro 16, 2009
Tudo bem, não tenho o talento que desejava ter, mas ainda tenho idéias, e elas ainda têm acento, porque são minhas e porque assim as quero.
As imagens também nos alimentam, por isso o sistema agora é a troca de imagem ali de cima a cada novo texto. É o mínimo de alterações nesse mundo tão cheio de novidades, creio que é possível absorver essas poucas informações sem muito trabalho.
E só.
Quinta-feira, Janeiro 15, 2009
Perdi totalmente o jeito com a criação de templates... Passei do tempo, envelheci, não atualizei os novos e sempre mais novos códigos, no mundo que vaialém do HTML.
Terça-feira, Janeiro 06, 2009
Escolhas
Disse uma amiga que é muito comum pessoas optarem por cursar faculdade de Psicologia para entenderem a si mesmas. No primeiro dia de aula, questionadas sobre o motivo de sua escolha, em geral é isso que falam. "Porque quero entender a mim mesmo". Seria errado, de acordo com o ponto de vista da amiga, porque na realidade o curso e a atuação são voltados para o outro, acima de tudo. E quem deseja entender a si mesmo provavelmente não tem estrutura emocional para descobrir ou repensar seu 'eu' sob a visão da psicologia e suas diversas linhas. É fato.
Isso de ter um conceito voltado para si mesmo acontece também no Jornalismo. Lá, na pergunta do primeiro dia de aula, a resposta: "Porque gosto de escrever", não basta. Teria de ser "porque gosto de escrever para o outro", afinal, não bastam minhas idéias, minha aprovação, é sempre para o outro. É nele que se percebe a validade ou não do trabalho, por mais que a satisfação seja plenamente pessoal. O barato da vida é ver que para o resto do mundo, o outro sou eu, enxergando de fora para dentro.
Sexta-feira, Dezembro 19, 2008
Afinal, isso é um blog pessoal
A vida na ociolândia é, obviamente, tranqüila. Há muitas horas estendidas no varal, todas esperando pacientemente o vento passar e levar cada gota d´água. Eu acompanho essa expectativa morna, que às vezes esfria e a gente trata de sacudir novamente. Para isso, entramos cômodos adentro, quarto-sala-cozinha, e cada um tem lá seus atrativos.
Nada que supere a geladeira, mas a cama tá quase chegando na mesma pontuação. Temos também a televisão, que trata de entreter com mais ou menos bobagem, de acordo com a hora e o canal. O filme 'before sunset', ou antes do pôr-do-sol, acho, já vi quatro vezes em poucos dias. Ou vi meus dias quatro vezes em poucos filmes, como preferir.
Aliás, a preferência conta muito porque é possível ir até a padaria por um simples quindim. Sim, dá até para escolher o caminho, se pela rua do lado, que reúne, em seus prolongamentos, ao menos nove cachorros. Many, Pingo, Wid, Tico, Banzé, Boneca, Peluda e outros. Vale lembrar que a Boneca é um dos pitbulls mais dóceis da cidade. E que a Peluda veio da feirinha do Fauna, e que antes dela, morava na casa, com outros moradores, o pastor alemão Bóris, com quem eu sempre conversava mas só fui saber depois que passava fome, que seu dono mal o alimentava. Um dia liguei para a casa do Bóris.
- Olá, eu sou a menina que sempre passa aí para ver o cachorro.
- ...
- Ele tá bem? Tá muito magrinho...
- Ah, ele tava doente, mas agora já está melhor.
- Então tá tudo bem com ele??
Eu não devia ter me contentado com a resposta, mas acreditei, e não devia mesmo. Depois que soube, já não havia o que fazer, sem meios de localizá-lo pela pequena-grande Ponta Grossa.
Então, as escolhas. É muito divertido contar com um leque abstrato de escolhas. Misturando o tempo que corre no relógio com as cores do dia, mais as possibilidades reunidas em um par de pernas e um bom fôlego, além das ruas que saem de frente da minha casa e, como rios e mais rios, percorrem o resto do bairro (que desagua em outro e em outro), dá para fazer coisas infinitas. Verdade. Pergunte se eu faço. Ok, não pergunte. Não me obedeça também, que tipo de idiota é você?
Então, então. Claro que agente acaba encantado com o mundo colorido, vasto, incrível que é a ociolândia. Mas tudo o que é vantagem, nesse mundinho, também é seu oposto, e nos engaiola. As opções abrem um horizonte que não é alcançável pelos olhos, sequer pela imaginação. É um abismo em que não se vê nem o fundo nem o eco consegue percorrer tamanha distância. É um espelho com outro em frente, com imagens a se perder de vista.
Nunca fui boa com escolhas, há quem diga que sou impulsiva. A escolha pressupõe o abandono de outra coisa, a que não é escolhida, e não é bacana rejeitar opções, elas podem ter sentimentos.
Tudo isso, para quê, me pergunta o mouse óptico, com sua luzinha vermelha que brilha quando se coloca ele de pernas para o ar. Eu o olho com desconfiança, ele é ligado a um centro nervoso por um fio, que espécie de dependência é essa?, então o desprezo. Ele insiste, insiste, é do tipo chato e tagarela. Cansada, confesso sem olhar de frente - que aí seria pedir demais, claro - que a ociolândia, sonho de consumo de 9 em 10 serezinhos com apêndice recolhido, tem prazo de validade. E tenho medo que ele vença, porque ate agora tudo está indo bem demais. Não quero que aconteça como o pão Nutrella, que chegou na terça-feira no armário e já hoje tinha manchas verdes de bolor, pipocando como catapora. E sem aviso-prévio. Serei pega de surpresa, e no momento será apenas um suspiro, seguido por um pensamento adiado ao máximo... 'ufa, cansei de não fazer nada'.
Satisfeito, agora? Como o tipo de pessoa que todos odiamos - as que só se movem com empurrões, ele não me responde, com sua luz de um vermelho ridículo que não se encaixa nem no batom mais vulgar. Tens a confissão, tens o fracasso anunciado em forma de palavras vãs. Dorme agora, que pouca coisa ainda resta.
Sexta-feira, Dezembro 12, 2008
Há sacolas, mundaréu de gente e também o ar abafado. E é difícil andar pelas ruas, tem de fazer esforço para se misturar com as pessoas. Ufa, ao menos é possível parar sob as marquises e fingir esperar sabe Deus o quê. Entrar em uma loja qualquer sem ser importunado por vendedoras. Não, você não pode me ajudar. Se pudesse, moça, gostaria mesmo? Mesmo?
Pode-se, com o calor, fingir pressão baixa e pedir que avaliem sua saúde arterial na farmácia. Os atendentes quase sempre são simpáticos, exceto quando têm vários clientes para satisfazer, como aquele senhor ali, de camisa cor de abóbora, ele tem três receitas diferentes e não lembra qual é a dosagem. E de 10 para 100 miligramas a diferença é só um zero a mais. Não? Não. Ah, os atendentes de farmácia. Assim como os de feira, é preciso certo traquejo na hora de pedir conselhos. Não me vá perguntar porque, sendo o mesmo remédio, o preço é diferente, em coisa de mais de R$ 15. Poucos saberão dizer, raros confessarão que o mais barato foi menos testado e apresenta prevalência de ataques epiléticos em 4% dos usuários. Mais raros ainda serão os que em você perceberão apenas uma crise de carência, dizendo: "não precisa de remédio não, moça, vem aqui que te dou um abraço. Pronto, agora vai até a padaria e compra a melhor e maior bomba de chocolate que encontrar. Não esqueça de um telefonema para amigo querido. Mãe nessa hora não é boa porque vai fazer perguntas demais, e no final arremata com um 'eu nao disse?' quando você contar que uma de suas tantas ilusões foram frustadas. De novo. A parte boa é que você vai economizar R$ 24 e, tirando os R$ 3,50 da bomba, poderá ainda aplicar em uma boa tinta de cabelo. Que mulher quando quer mudar de vida é isso que faz, não é? O resto, guarde para um cachorro-quente de rua, que é coisa simples mas prazerosa. Tenha uma boa tarde. O próximo, por favor". Quantos desses eu encontrei? Nenhum, mas me fica a sensação de que uma moça quase agiu dessa forma, sendo impedida pelas câmeras de segurança repressoras e a moça do caixa, de batom vermelho, que guarda sob o teclado do computador uma lixa pois não suporta unha lascada.
Ela ia me falar coisas importantes. Iniciou com um suspiro, inclinou-se sobre o balcão de vidro, olhou para o lado da caixa, por dois segundos me olhou fundo nos olhos, numa tentativa de passar a mensagem. Era muita pressão, compreendi. Para compensar, pedi mais duas ou três aspirinas e agradeci pela atenção. Boto fé que na próxima, talvez, ela consiga, quem sabe o meu caso não fosse tão grave. Aquela menina que ali entra agora parece ter maior agonia, será que há então maior merecimento? Ora bolas, lá vai ela, inclina-se, devagar, olha para o balcão de vidro. Vai agora olhar para a menina? Agora, agora? Faz correr a portinha de vidro do balcão. Alcança um simples pó de arroz. E entrega para a menina. Merecedora coisa nenhuma, nem suspense existia naquela alma. Vejo que a atendente mostra certa decepção. A mensagem permanece com ela, e às vezes muda de sentido, como as frutas que só nascem nessa ou naquela estação. E caem de maduras, e não são colhidas, e nem ninguém sente seu sabor, e apodrecem, e viram adubo.
(Sobre frutas não saboreadas, lamenta especialmente pelo limão, que, cheio de variedades em uma mesma fruta, carrega sucos, doces, aromas, o verde mais bonito dentro de si. É verdade, o rapaz que a convidou duas ou três vezes para sair deveria já ter percebido seu gosto por limonada. Não o fez, o tolo)
Ela aguarda o momento exato, que tem de chegar junto com o cliente ideal, o que carrega nos olhos a expressão de desepero contido, mas ainda assim passível de explosão, ainda que para dentro. O que seria uma implosão, claro. Nesse dia, é para acontecer a mistura exata de empatia em via dupla, em que não será preciso mais do que os passos em direção à atendente para que, através do som dos sapatos, ela saiba que é a hora correta. Nada naquela pessoa, nem os poros do rosto nem a sujeira na gola da blusa, nada irá enconbrir o que deve ser dito, o que deve ser feito. Por essa expectativa e certeza, a atendente passa por cima da tristeza e perdoa a menina que não tem a riqueza de alma suficiente. Perdoa inclusive os passantes da calçada, que têm mais o que fazer do que buscar mensagens cifradas no rosto de uma moça de pele branca, branca.
O perdão, ela o concede de forma gratuita. Se pudesse, diria, a todas as pessoas, não só àquela afortunada que deve chegar um dia à frente do balcão e ler de maneira definitiva as razões de as coisas assim serem, mas todas as que passam pelo seu trabalho, e no ônibus, diria que elas estão perdoadas. Por não dar esmola, por gritar com os mais velhos, não esperar o sinal ficar verde e até por uma ou outra mentira, daquelas cabeludas. As mais amenas nem de perdão precisam, diria junto. Por outro lado, sabe que pousar a mão no ombro de desconhecidos pode soar estranho. E é tudo, mesmo, estranho, um conjunto de peças que não apresentam lógica, exceto se vistas sem a exigência de entendimento. Ela sabe disso e de muito mais. Só não é do tipo arrogante, e você não imaginaria que além de buscar medicamentos em prateleiras altas com a ajuda de uma escada, ela ainda chega em casa e arranca a página do calendário ainda antes de ser o dia seguinte. Porque antes de o dia começar, antes de o 'hoje', terminar, tem de se pensar que vai chegar o próximo. O outro, o seguinte também. Assim acabam os motivos para encher a noite de desesperança. Pinga duas gotinhas de limão sobre o travesseiro, não são nem onze horas, mas dorme.
Quarta-feira, Dezembro 10, 2008
Sozinha, a dificuldade estava em encontrar o que queria fazer, ser livre exige sabedoria. Três horas podem passar sem que a vontade seja descoberta, lá no fundo. "O que mesmo eu quero fazer? Ah, eu posso fazer qualquer coisa".
Sublimava desejos. Pensar sobre ela é desenhar uma imagem torta no espelho, que se sobrepõe à figura real projetada. Ela passou anos desenhando com canetinhas coloridas sobre a imagem espelhada. Pintou aqui e ali, depois não lembrou mais como era antes. Como era mesmo antes?
Domingo, Novembro 02, 2008
Dois ou três toques no teclado
As palavras, eu as tenho. Sinto a vontade de ordenar as frases, construir textos. Mas acontece que acabo sucumbindo. Ao dia, ao mundo já tão cheio de páginas escritas.
Sou a pessoa do arrependimento que antecede o ato, não fazendo nada, portanto. É dessa forma que não vou morar na Bahia, que não escrevo um livro, que não declaro verdades só minhas.
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A vida e o filme
Tenho pra mim que qualquer vida teria mais sentido se transformada em roteiro de filme, de onde é possível perceber a lógica do início, dos fatos que ocorrem e persistem, do cenário atual... Viver somente o dia, olhar somente para o que houve na semana ou ano acaba sendo muito limitante. Existe certa coerência, acredito, entre fatos, independente da beleza de cada um.
A abstração é sempre a melhor fuga. Sempre imaginei de maneira ilustrativa a expressão 'sair pela tangente'.
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Após comprar um Pica-Pau de pelúcia, ou melhor, recheado de bolinhas de isopor, em uma esquina de Castro, uma mãe arrasta a criança pela mão. O menino pergunta: "ele fala, mãe?", segurando o boneco ainda dentro do plástico. A mãe, com amargura de pessoa sem infância: "Fala coisa nenhuma. Isso é só dinheiro jogado fora!". Não sei se minha dó foi maior da criança ou da mulher. Mas penso que se há magia na infância os adultos devem fazer um esforcinho para mantê-la.
O preço do Pica-Pau, a propósito, é R$ 25.
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Nessa semana ataques a bomba a mercados indianos deixou centenas de feridos e quase 80 mortos. Era hora do almoço, momento do dia em que os locais estão mais cheios.
Ainda nessa semana um carro explodiu (atentado com bomba) na Universidade de Navarra, na Espanha. Por ser hora do almoço, quando estudantes não estão nos blocos, os destroços atingiram um número razoavelmente pequeno de pessoas.
Dois locais, mesmo horário, significados distintos.
***
Igual aos sites e emails, em que, após inserir senha e login para entrar, a mensagem de confirmação é exibida ao usuário, antes do parto a pergunta à criança deveria ser:
Você está prestes a entrar em um mundo inseguro. Tem certeza de que deseja fazer isso?
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"Pelas ruas o que se vê é uma gente que nem se vê e nem sorri", dizem eles, para em seguida vir com esperança: "no entanto é preciso cantar, mais que nunca é preciso cantar...".
Marcha da quarta-feira de cinzas
Quinta-feira, Outubro 16, 2008
Minha alegria, meu cansaço...
Se você notar bem essa página, pessoa, verá que os temas são cansativamente os mesmos. Os monólogos versam sobre tempo, saudade, crescimento, cura, multidões, solidão, preguiça.
E eu continuo a sentir necessidade de escrever, mesmo com essa inércia negativa que me toma há tanto tempo. O que eu não digo aqui, no entanto, ocupa ainda mais espaço do que os escritos. São idéias e frases que chegam até mim, rodeiam, rodeiam e, como deixo passar tempo demais, vão embora. Muita vezs magoadas, percebo.
Acho mesmo que é a proximidade do aniversário, mas junta uma quantia curiosa de sentimentos nesse 1m59 de corpo que não é mais tão magro como há poucos anos.
Não sei se é influência astral ou hormonal. Deus ou a novela. O sequestro da menina de 15 anos, talvez.
O fato é que não vi nada no livro "O apanhador no campo de centeio".
Que gostaria de passar três dias em outro lugar (Bahia?).
E que nunca fui uma festa à fantasia.
Diria até que odeio utilizar tantos 'ques' na escrita.
E, quem iria imaginar, tenho um emprego aceitável, ou, me aceitaram em um emprego.
Ainda acordo de madrugada com a certeza de ter visto uma aranha passeando pelos cobertores. E acendo a luz, e chacoalho a cama. E penso 'putz, fiz isso de novo'.
E ainda não conclui se o que prende é a identificação ou a diferença entre as criaturas.
E no dia 19 vou poder dizer uma coisa muito idiota que de tão boba é legal:
Há doze anos eu tinha doze anos.
A saudade chega com uma música. Pode ser de pessoas, mas muito mais de períodos. Das quatro ou cinco meninas que já fui, sinto falta de quase todas.
Daquela que tinha trejeitos desajeitados, vergonha de andar entre muita gente.
Da outra que se abalava daqui até outra cidade para ver alguém que amava. O que muda, então, ao longo do caminho?
A que se julgava independente, a que se acovardou e a que pulou em um buraco de olhos fechados estão ainda por aí, sorrindo em álbuns de fotografia. E tem aquela que, hoje, não escreve mais.
Tudo o que vale a pena um dia morre.
Sábado, Outubro 11, 2008
É verdade, é concretude que me falta. Não carne e osso, não tecido. Concretude nas palavras, cimento nas idéias, as escritas no papel. Eu concordo com isso, mesmo que nunca tenha sido dito. Concordo, aliás, com a maioria das coisas que jamais foram ditas. As já faladas por aí, em compensação, carecem de razão.
Nunca fui a voz do conhecimento, o poço de sabedoria. Não afirmo se o filme A ou B é 'clássico' ou não vale a pena o ingresso. Nem se o livro é pós-moderno e se aproxima do vanguardismo europeu à la qualquer-coisa. E deixo até a crise financeira pra lá.
Acho curiosa a necessidade de andar com a razão presa na garganta. Aquele tipo de pessoa que, na fila do pão, gosta de mostrar que tem tanto conteúdo quanto bolo marta-rocha.
Me perdoe, mas os ódios são parte minha como as unhas. Mas, se me perguntares do que tanto tenho ódio, garanto, não terei a resposta na ponta da língua. Porque volta e meia a queimo na pressa do chocolate quente. Poucas, saiba, são as respostas que carrego prontas. Após as perguntas que naturalmente surgem no cotidiano, como andar na calçada ou na beira da rua, linhas e linhas de sílabas se juntam para resultar em uma coisa decente. Das certezas, duas ou três ainda me acompanham, pulando de bolso em bolso quando troco de roupa. Tudo bem, admito que gostaria de abandoná-las, esquecê-las presas na máquina de lavar. Jogar pelo ralo, sim, sim.
Das coisas que me incomodam no mundo, na vida e nessa loucura de dormir-acordar, a morte ainda é a mais forte. Não por medo de ir, eu mesma, embora do aqui, sumindo lá longe, virando uma substância etérea, joaninha em outro jardim. Meu medo, saiba, é a perda das pessoas. Antes a obsessão era com desconhecidos. Sabia da morte de um ator lá de Piracicaba, um senhorzinho do Rio Grande, a zeladora da faculdade particular e pensava: 'puxa, quanto devo ter perdido em não ter conhecido esse sujeito'. E me arrependia, juro. A ansiedade de conhecer o mundo, no meu caso, é a ansiedade em conhecer pessoas. E a perda, como dói a perda. São centenas de Marias de quem jamais ouvirei histórias. E tem a vendedora de cocada que passava todo dia por perto, e logo quando pensei em convidá-la pra um café, já não mais podia. Perdi muito com esse desconhecimento que, teoricamente, eu mesma não daria conta de modificar. Porque, obviamente, as pessoas continuam a morrer, mesmo que eu nunca tenha ouvido seus nomes. São meninas de 7 anos, homens com 32 e nenhuma família, ou o de 18 e três filhos, um com cada mulher. As casas em que nunca entrei também me doem. As cidades que não vi, igualmente, arranham minha garganta cada vez que tenho sede. Mas as pessoas que conheço e amo, sobre essas em geral evito pensar em relação ao 'último dia'. Que afinal nunca saberei quando será. E aí fica a pergunta: para quantas delas de fato confessei meu carinho? E quantas delas têm noção do que isso modifica em mim? Dessas mesmas criaturas, quantas terão uma vida boa para dizer, ao final: 'bom, do que desejei, quase tudo alcancei'. Em números, me diga, quais seguirão ao meu lado pelos próximos anos? E por último, mas não menos importante: quantas delas terão a paciência com essa doida que escreve, a mesma paciência que tiveram para chegar até o fim desse texto?
Eu sei, não se preocupe, que um dia a gente se cansa de perguntar. Nesse dia, será, ironicamente me chegarão as respostas?
Quinta-feira, Outubro 09, 2008
Eram muitas bolinhas de vidro, cada uma com cores vivas e diferentes. Juntas, formavam cenários, imagens e pessoas. Ele definia aquilo como sonhos e gostava de brincar com a infinidade de figuras formadas a partir de tão lindos tons.
Os anos passaram. Chegaram o tédio, a conformidade e a desesperança. As imagens criadas jamais se tornaram reais, palpáveis. Do mundo limitado pela sua mente, nenhuma delas conseguiu criar vida.
Com um martelo gelado quebrou todas as esferas coloridas. Uma a uma, esparramando o líquido bonito, que logo escorreu no primeiro ralo do caminho. Preto e branco, dentro dos vidrinhos, escaparam por não chamar atenção no momento de fúria. Desde então, noite após noite, ele sonha em tons monocromáticos, em uma seqüência que não surpreende, apenas repete o dia-a-dia cinza durante a noite fria.
...aprendera que a ausência é lugar de destroços. Cíntia Moscovich
Gislaine Bueno, Curitiba, PR. 24 anos.
Jornalista.